A morte dos olhos e a poética do corpo de Contador Borges

 

Livro A morte dos olhos, do poeta Contador Borges, reinventa a origem/sentido do olhar

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Não temos um corpo. Somos um corpo. Jean-Luc Nancy prenuncia que o corpo é o ser da existência, e que escrever é tocar o corpo, portanto tocar a existência, adentrá-la com a palavra, fazer com que a existência se abra – pernas, pélvis, cabeça – à linguagem. O corpo tocado pela escrita é o cerne do livro A morte dos olhos (Iluminuras, 2007) do poeta Contador Borges. Como o próprio título denuncia, a parte do corpo mais tocada pelos poemas são os olhos: a janela por onde alma, espírito, subjetividades vêm por a cara ao sol, vem lagartear-se nas pupilas que já nem são mais pupilas, “mas uvas em pálpebras vivas”. Os olhos que sabem que “a luz é tudo para a pele”, mas que negam essa luz a cada piscar: esse movimento involuntário, apagamento repentino daquilo que é olhado, metáfora física da morte: o ato de fechar os olhos do morto encerra definitivamente a vida, é quando a morte vem com seu “beijo sonoro como foice” e tudo ceifa.

A morte, também chamada pelo poeta de “a pequena” se metamorfoseia em “gozo do movimento: uma pausa para o recomeço”. É nos recomeços que os poemas vão contorcendo seus sons, suas aliterações, suas imagens fazendo do corpo uma carnação, muito mais do que uma encarnação. Carnação comandada pelos olhos que precisam morrer para a palavra respirar, porque “respirar é tudo”, respirar mantém a pele tesa, a pele que não pode ser trânsfuga, que tem que ficar presa ao corpo, feita em nudez proibida, aquela “nudez do ser na morte […] enquanto dura o instante da palavra”

Cioran formulou uma possibilidade de se reconhecer um verdadeiro poeta: “frequentando-o, vivendo muito tempo na intimidade de sua obra, algo se modifica em mim: não tanto minhas inclinações ou meus gostos, mas meu sangue mesmo, como se um mal sutil houvesse se introduzido nele para alterar o seu curso, sua espessura e sua validade.” Ele ainda afirma que poetas de verdade tem que intervir no mais profundo do organismo, que os incorpora como se fosse um vício, fazendo do corpo algo que se fortalece, mas em seguida se desagrega, se perde, se abre ainda mais para a fome de mais poemas. Contador Borges é desses poetas que se entranham corpo a dentro, que mudam o ritmo e o curso do sangue, que alteram a sístole e a diástole, que fazem do corpo do leitor um espelho: ele está lendo os poemas sobre olhos, rosto, pele, ossos, ao mesmo tempo em que está se vendo, se refletindo nessas imagens, sendo provocado por elas, pela morte contínua desses olhos, que mais do que cegueira, escuridão, medo, dão ao leitor uma clarividência que assusta, dão ao leitor o fora da caverna. Ora de forma indireta, quando o poeta só fala de si, do seu fazer: “os olhos que morrem e as palavras respiram em toda a parte da ilusão visível no manuseio de seres efêmeros.”, ora numa interlocução direta, olhos nos olhos, morte dos olhos na morte dos olhos: “você sente os olhos morrendo cada vez mais rápidos como se não tivesse outros, enfeita as mortes com rímel e esquece”.

O poeta provoca, irônico, o impossível, o improvável esquecimento depois de lermos essa “morte dos olhos” e a colocarmos dentro do nosso sangue. Tudo revoluciona, escande, impacto de signos: mais do que a junção de significante e significado, signo óptico, signo de previsão, de adivinhação, de estranha mundividência poética. Assim “o olho, aço da língua (vertigem), onde o cílio pousa e o sentido se concilia com a morte (ainda quente)” é o que reverbera desse livro: uma conciliação, um repouso, um sono tranquilo entre a morte, os olhos, o sentido, e o corpo, tanto do leitor invadido, transmutado, quanto do poeta, a quem só resta: “olhar e morrer na latência pedindo silêncio”. Contador nos faz imergir, sem sutura, ao fogo em combate com a luz:

 O rosto, a folha, o brilho opaco,

o riso enfeixando lenhas

 de sua fogueira

 rosada: os olhos,

estrelas queimando o derradeiro

 fôlego, o pacto

de gloriosa cera

[…]

um maremoto na boca

amarelando os olhos,

algas, algas

 sonoridade de vômitos homéricos, intermitentes

 palavras, dispersas, escassas.

Se “a luz é tudo para a pele” como afere o poeta. Há, em sua poética, uma busca constante da iluminação do corpo. É nesse momento que o periférico ascende. Dante percebia, em sua subida aos céus, no Paraíso, tudo pelo olhar de Beatriz. Tudo se intensifica de tal forma que já no Céu do Sol a luz do olhar de Beatriz é todo o corpo. São Matheus também isola o olho para irradiá-lo para toda a carne, já que para ele o “olho é a raiz da alma”. Contador Borges trabalha o corpo em suas escansões: pálpebra, lábios, garganta, nariz, unhas, carne, ossos, dedos, pele, perna, dentes, língua, mãos, cabelos, coração são a carnificação do olhar. “O olho, aço da língua” é a síntese da permuta imanente de todos os sentidos. Estamos diante de um olhar sinestésico do corpo: que recebe e emana luz às sombras. A morte dos olhos se vale da concretude bruta, primitiva que nos grita. E diz: olhar o mundo machuca a retina e cicatriza o corpo, tatua o que entra e o que sai do olhar. A luz também é corpo. E se os olhos são “estrelas queimando” tem sua iluminação assegurada na propagação da luz, mas abraça a escuridão em cada relâmpago emitido. O poeta mexicano Victor Sosa, em estudo sobre A morte dos olhos, acompanha nosso pensamento corpóreo advindo de Jean-Luc Nancy e Cioran e diz “A condição corpuscular e, por sua vez, ondulatória da luz. A luz como corpo e como onda energética; o corpo como luz que se faz e se desfaz em sua refração incessante. A luz é um prodígio, como o corpo.”

Contudo não podemos esquecer da sombra e do tom sombrio que permeia a luz. A luz invade o corpo e dele emana. E é neste momento de suspiro luminar que a sombra se estabelece. E se A morte dos olhos se equilibra nos entremeios: sombra x luz, loucura x razão, terreno x divino e perda x permanência. Fiquemos, uma vez mais, com Cioran: “cuando muera en tu fuego toda resistencia y todo sea posible, sea muy posible, entonces habrás alcanzado el poderío ante el que lãs fuerzas del mundo desaparecen como sombras; sombras absorbidas por tu temblor loco y divino. Una Piedra, una flor y un gusano son más que todo el pensamiento humano. Lãs ideas no han alumbrado, ni lo harán jamás, um átono.” O livro de Contador Borges nos leva à morte incendiada. Incinera o ar. É o corpo que olha, reverbera e sublima mesmo quando expia. É escritura-carnação. A morte dos olhos é a morada da sombra na luz.

A morte dos olhos de Contador Borges

Poemas, 2007

75 páginas

Editora Iluminuras

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Uma resposta para “A morte dos olhos e a poética do corpo de Contador Borges

  • Contador Borges

    Caros Marco e Rubens: muito bonito o que escreveram.
    gostei muito do texto: a pegada, o tom, os cruzamentos.
    O ensaio dialoga de forma muito feliz com o livro.
    Fico muito grato a vocês.
    Forte abraço
    Contador

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