C. Ronald, o poeta, o homem e sua linguagem

 

O POETA C. RONALD E O “CARREGAR O CÉU NAS COSTAS COMO MOBÍLIA”

 

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

C. Ronald é um dos poetas mais profícuos, intensos e obscuros da poesia brasileira. A profiquidade e a intensidade são inerentes à sua linguagem. Já a obscuridade advém de uma série de fatores. Talvez, um dos principais seja o “encastelamento” do poeta no interior de Santa Catarina, desconectando-o do sistema literário. Tal é a desconexão, que ele é praticamente ignorado pela crítica e pelos estudos acadêmicos. Não há tese, não há dissertação, não há olhar que busque expor a obra de C. Ronald para um público maior do que seus aficionados leitores.

Não se trata de pretender que a obra desse poeta se torne um best seller, um sucesso de mercado, mas de colocá-la num lugar mais visível, mais à altura do que ela realmente é. Salvo honrosas exceções, o que temos são silêncios e silêncios recobrindo os quinze livros de C. Ronald. Esse texto é a nossa tentativa de falar dessa poética ampla, irrestrita, também presente em seu penúltimo livro: Um lugar para os dias. (C. Ronald acaba de lançar Bichos procuram buracos em paredes brancas, também pela Editora Bernúncia). Como é comum na sua obra, Um lugar para os dias se configura em mais uma parte do grande poema que C. Ronald vem escrevendo desde 1971, quando publicou As origens. Um longo poema em que as imagens reverberam, desassociam os sentidos, partem e repartem as certezas do leitor e se reconciliam em outro poema adiante.

            Os poemas de C. Ronald são muitas vezes chamados de herméticos. Alain Badiou diz que só é licito falar de hermetismo quando há ciência secreta, oculta, e com isso há necessidade de compreender as chaves da interpretação. Não é o caso dos poemas de C. Ronald, que podem ser vistos como enigmas. Não há interpretação, não há chaves para eles. E o poeta diz:

Ele fala como se arrancasse ossos das palavras;

contudo o que diz não é certo.

De sombras invisíveis nascem dúvidas.

Da eternidade apenas procura, oferta, estima

o cão amigo amedronta-se

a luz não é espessa o eco falha. (p. 91)

 Então, tudo que temos são os poemas nos pedindo que entremos neles, que façamos enigmas também. O próprio Badiou nos dá a fórmula: “envolver-se com o poema, não para saber do que fala, mas para pensar no que nele acontece.” E nos poemas de C. Ronald há uma profusão de acontecimentos a cada verso: “tal concerto não vem com notas justas” (p. 54). Essa variedade de acontecimentos, essa ausência de notas justas, claras, essa ausência contínua de chaves é que faz a força da poesia de C. Ronald. Ao ler esses poemas é como se fôssemos estrangeiros dentro do nosso próprio idioma: sabemos os fonemas, identificamos as palavras, a sintaxe, mas tudo vem num fluxo tão invasivo, tão persuasivo que o sentido se esgarça, se esfacela e a razão se subtrai, e tudo o que temos são uns entraves com o desconhecido. Ainda que possamos tirar alguns temas recorrentes: a crítica ao nosso sistema cultural, aos grupelhos literários, à burrice predominante, ao abandono do estado poético, a morte e a banalização de tudo que nos cerca é na força dos enigmas que a escritura de C. Ronald dilacera as correntezas:

 Esperança e saudade estão unidas, só o modelo

do intervalo é branco, a emoção vai

deslizando para o cenário. Oh, o que produzem

as palavras em cima dos sonhos

para serem entendidos?

 

O silêncio de ontem exumado ao lado de barcos

abre fendas no mar. Nossa cabeça é só um ponto

e fica com o horizonte atrás do espanto.

A ausência é sempre alguma coisa

na Ilha quando há náufrago para chegar. (p. 58)

 Maurice Blanchot, partindo de um verso-pergunta de René Char, “como viver sem ter diante de si o desconhecido?”, faz algumas considerações muito vivas sobre essa força que nos acomete quando lemos C. Ronald: o desconhecido. Para Blanchot, o desconhecido não é nem o objeto nem o sujeito e pensar o desconhecido não é de forma alguma propor-se o ainda não conhecido.

Ou seja, não é algo a ser revelado, clareado, explicitado. O desconhecido, assim como a poesia de C. Ronald, tem que ser encarado, lido, pensado, como o desconhecidoem si. Usandoainda as palavras de Blanchot: “supomos uma relação em que o desconhecido seria afirmado, manifestado, e até exibido: descoberto precisamente naquilo que o mantém desconhecido”. Ler C. Ronald, qualquer um dos fragmentos de seu grande poema, é encarar essa contradição – relacionar-se com o desconhecido como desconhecido, sem querer abri-lo, descobri-lo, fazê-lo solar:

tocamos o limite

em direções contrárias; o obscuro e o fundo

somam o traço delinquente das

balas que enterramos no mundo”. (p.37)

Eis o que a poética de C. Ronald nos exige, tocar o limite em direções contrárias; aguçar os ouvidos para a algaravia de sons, ritmos, imagens que o idioma de C. Ronald nos fornecerá; abraçar, acariciar, engolir o desconhecido em todos os seus paradoxos, os seus contrários e contradições. Mais um pouco de Maurice Blanchot, para nos ajudar nessa empreitada: “O desconhecido não cai sob o olhar, sem estar, no entanto, escondido do olhar: nem visível, nem invisível ou, mais exatamente, desviando-se de todo o visível e de todo o invisível”. É nesse lugar de desvio, nesse vácuo entre uma coisa e outra, entre o possível e o impossível que somos jogados, arremessados quando adentramos os poemas de C. Ronald. Livro a livro, poema a poema, o que temos é um invólucro, uma armadilha vocálica, poética, para a qual voltamos sempre, como se fôssemos escravos e anjos, como se fôssemos parte dessa incomensurável obra.

O leitor de C. Ronald, quando adentra por seus ritmos, adentra numa floresta que cultiva tempestades. É o próprio poeta quem alerta aos falsos bandidos da escritura: “Escritor não é quem escreve. Escritor é quem vem para mudar o sentido da escrita antes de dizer o que quer. O escritor é a vontade da frase, é o fim da palavra sem ideias, é a moral do sentido.” No livro Um lugar para os dias, C. Ronald radicaliza suas próprias exigências. O título já nos sugere que, para retomar Blanchot, é a escritura a sua morada. O lugar para os dias são os poemas e suas buscas. O livro em questão reúne textos escritos entre abril de 2006 a agosto de 2008. Todos os poemas levam como título a data em que foram escritos, reunindo assim, um recorte desse período. Heidegger disse que “a linguagem é a casa do homem” e é desse estar na linguagem, desse ser a própria linguagem que se ocupa Um lugar para os dias. Embora seja perfeitamente possível adentrar nos campos semânticos e nas insistências de alguns assuntos, o melhor mesmo é não tentar dissecar o enigma e deixá-lo entrar e ficar com a lição de T. S. Eliot, quando diz que a poesia prescinde de explicação. E C. Ronald finaliza:

 

Nosso reino sempre foi desabitado, não houve

rainha, nem nobres, não houve achado em cada

procura, não houve aposentos, nem móveis,

também não havia portas, as janelas abriam

para o nada e não havia história,

somente a ilusão deixava provas. (p. 102)

 

 

Um lugar para os dias, de C. Ronald

Poemas, 2008

130 páginas, R$ 20,00

Editora Bernúncia

 

             

 

 

 

 

 

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