Fragmentos para um feriado chuvoso

FRAGMENTOS PARA UM FERIADO CHUVOSO

Por Rubens da Cunha 

Publicado no jornal A Notícia [16/11/2011]

Pouco a dizer. Dentro, outras preocupações, outro veios. Pensa nos velhos, aqueles que se sentam e rememoram e falam, como se falar lhes fosse a vida, a manutenção da vida.

Nos olhos do cão uma tristeza sem par. É como se toda a ferocidade que lhe impuseram agisse como um câncer. Quanto mais ele fingia ser bravo, perigoso, assassino, mais os olhos, e por consequência, todo o corpo ficavam tristes. Nos cães, os olhos também são a janela da alma.

Veio me visitar. Andamos pelos novos parques da cidade, abrigados pelo guarda-chuva quebrado. Rimos algumas vezes, lamentamos tanta água no nosso feriado. Não que a chuva tenha nos deixado tristes, apenas lavou nossa casca, danificou nossas defesas. Ficamos puros feito árvore molhada. A melancolia vem do futuro, pois logo nos secaremos, logo voltaremos, sérios e adultos, à vida normal.

Normal: adjetivo que muitos nos impõe, que outros tantos desejam conseguir a todo custo, a toda aparência. Normal, aquela coisa que de perto ninguém é, assim nos ensinou o cantor baiano. O normal é um abismo onde temos que cair. Os que caem, e quase todos caem, invejam profundamente o medo daqueles que ficam à beira do abismo.

A preguiça é um direito inalienável dos gatos. Os humanos também tinham esse direito, mas inventaram o trabalho. Com saudade da preguiça inventaram o feriado. Se chove no feriado, a preguiça ancestral surge, fêmea lassa, e enlaça-se nas coxas, nas costas, na testa dos viventes, e todos dormem preguiçosos e felinos. A exceção, claro, fica por conta dos azarados de sempre que tem que trabalhar no feriado. Outra exceção é quando o sol brilha, muitos são obrigados a saírem com suas famílias, amigos e demais humanos, para se “divertirem”, para ter um momento de “lazer”: essa outra praga que obriga a preguiça ser deixada de lado.

Cada livro não lido é uma promessa não cumprida. A biografia de Cruz e Sousa equivale a caminhar todos os dias. “Ser e Tempo” de Heidegger equivale a fazer musculação. Talvez se a morte vier disfarçada de infarte ou diabetes, a leitura, a caminhada e a musculação comecem.

Cada vez mais as pequenas corrupções se tornam eufemismos. Estacionar o carro em fila dupla: “só um instantinho”. Não devolver o troco errado: “só uma vantagenzinha”. Não respeitar o direito dos outros: “é rapidinho, depois eu respeito”.

“Os sentimentos vastos não tem nome” escreveu Hilda Hilst, num de seus mais poderosos contos. É possível existir algo sem nome? Acredito que nomear tudo seja a forma que o humano encontrou para delimitar a vasteza, para visionar limites. Mesmo coisas deslimitadas como Universo, Deus, Futuro, Infinito, são postos dentro de cinco ou seis letras. A linguagem é nosso limite. A linguagem é nossa forma de estabelecer as fronteiras para o sentido, ao mesmo tempo, a linguagem é nossa libertação, nosso poder de ir além da realidade, ir além do limite, ir além da linguagem.

Frida Kahlo me olha. Ao ser olhado por ela, me fragmento.

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