Sobre palhaços e bufões

SOBRE PALHAÇOS E BUFÕES

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [28/11/2011]

Sensíveis, leves, inocentes e ingênuos são os palhaços. Os palhaços levam em seus gestos a semelhança dos gestos das crianças. A sátira do palhaço é quase sempre com ele mesmo. Ele é o anjo torto, o sol negro. Ainda que não se exclua o discurso crítico na figura do palhaço, ele nunca aponta os defeitos alheios, quando muito incorpora tais defeitos e metaforiza sua acidez.

Já os bufões são irônicos, grotescos, implacáveis e debochados. Pertencem à espécie do bobo da corte a que tudo é permitido. A eles é dado o direito de colocar o dedo nas entranhas das hipocrisias e deturpações sociais. Traições, roubalheiras, crimes e tramas políticas não escapam à sua análise. Qualquer outro, seja da corte ou não, que tente apontar um defeito qualquer nos reinados, caberá o fuzilamento e a perseguição.

Neste mês de novembro, Santa Catarina recebeu uma legião de palhaços e bufões no 1.º Festival Internacional de Palhaços, o Ri Catarina. A programação contou com a apresentação de espetáculos já conhecidos do público: o inesquecível “As Três Irmãs”, a nova versão do “De Malas Prontas” e a presença da trupe do Teatro de Anônimo, nacionalmente conhecida por agigantar a arte da palhaçaria.

A novidade, no entanto, ficou a cargo do bufão italiano Leo Bassi, que vive na Espanha. A Itália é berço dos bufões, que, naturalmente, depois se espalharam pelo mundo. Bassi começa seu espetáculo “Instintos Ocultos” provocando a plateia e se apresentando como um bufão autêntico num jogo intenso de metalinguagem no qual transita entre o escroto, o grotesco, o feio passando pela poesia e por uma acerba crítica ao modus vivendi da sociedade brasileira, italiana e espanhola.

Uma das ironias mais brilhantes do trabalho é a construção do personagem homem-coca-cola. Bassi criou um colete terrorista cheio de coca-cola e, com uma furadeira, explode o líquido sobre a plateia. Simbolicamente perfeito. “Instintos Ocultos” desmascara o capitalismo, a igreja e toda sorte de falso moralismo. Ao termino da apresentação, num ato de pura coragem, Leo Bassi convida os espectadores para sair do Teatro Álvaro Carvalho. O jogo se estabelece, o público segue o bufão pelas ruas da cidade. Grande parte da plateia, contagiada, discursa contra o catolicismo em frente à Catedral Metropolitana. Depois, Bassi conduz o público-bufão, em procissão, para baixo da figueira da Praça XV na busca de um primitivismo perdido. Ele arremata: “há quem diga que o que faço não é arte, mas arte, para mim, é deslocar as pessoas.” Deslocou! E muito!

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2 respostas para “Sobre palhaços e bufões

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