ESTROVANDO

ESTROVANDO

Rubens da Cunha

Publicado no jornal A Notícia [30/11/2011]

A face triste dos motoristas no congestionamento. Mais uma fila interminável para as centenas de carros e dezenas de ônibus. Todos apinhados na manhã. Porém a lentidão está além do normal. Quem se atreveu a romper o fluxo já lerdo do trânsito matinal? Que desatenção fez com que os carros se tocassem, se acariciassem metal contra metal?

Aos poucos, o motivo da lentidão vai se revelando: cinco carros, cinco destinos com um acidente matinal no currículo. O dia para eles já não será o mesmo: acertos, seguros, guinchos, transtornos, atrasos. Parece ser nada grave, mas o suficiente para atravancar o dia, não apenas deles, mas de todos os outros que passaram por seu caminho nesse momento.

Como se deu esse acontecimento? O primeiro motorista freou, algo aconteceu a sua frente. Houve o alívio de não ter esbarrado na traseira do outro. Dois segundos de felicidade: veio o choque detrás. Pronto. Lá se foi a manhã para o primeiro, que não estava muito afim mesmo de chegar no trabalho, ao contrário do segundo que parecia já estar na reunião. Não voltou a tempo. O susto brusco veio tanto pela batida no carro à sua frente, quanto do solavanco vindo da parte traseira.

Dentro do terceiro carro, pode-se ouvir um palavrão antes da freada. A mão firme no volante, a culpa quieta, porque só ele sabia que estava desatento, olhando para o lado, não exatamente para o lado, mas para o derrière de uma morena que seguiu o seu caminho. Antes que pudesse se desculpar a si mesmo, ouviu o ruído atrás de seu carro. Pronto, o derriére saiu mais caro do que o previsto.

O quarto motorista, não era ele, mas ela. Irritada com cólicas pré-menstruais, que pouca incomodação é bobagem nesses dias. Não bastasse a cólica, o marido que não a amava, o filho ingrato, a sogra víbora, a chefe cafona e mais víbora ainda, tem que esbarrar em três burros desatentos e tem que ser esbarrada por um outro burro mais desatento ainda. O pior foi nem ter se ferido, tivesse morrido toda essa desgraça de vida acabava logo e mês que vem não teria que passar por tudo isso de volta.

Para encerrar, o último. Saindo de férias, dez dias na serra. Vida no campo, passeios a cavalo, verde por todo lado e solidão. A tão esperada solidão anual, sem gente atravancando o caminho, dez dias e dez noites. Dentro da cabeça a cachoeira, o canto dos passarinhos, a beleza das flores serranas. De repente, o sonho anoitece, na frente os carros parados, o pé no freio, o volante para o lado esquerdo não adiantou. O barulho do para-lama direito de encontro ao outro carro foi rasgando seus ouvidos e aniquilando seus dez dias de paz. Quem conseguiu passar pelo engavetamento pensou aliviado: não foi dessa vez a minha vez de estrovar a manhã.

p.s.: A palavra “estrovar” também é um acidente linguístico, a velha senhora gramática manda a gente dizer “estorvar”, mas somos desobedientes e achamos muito melhor falar “errado”.

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3 respostas para “ESTROVANDO

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