Reunião

 

A REUNIÃO

POR RUBENS DA CUNHA

Publicado no jornal A Notícia [06/12/2011]

Amigos reúnem-se. 21 horas de um sábado qualquer. O dia tinha sido intenso para todos. O verão começava a ferver não apenas os corpos, mas aquilo que os anima: alguns chamam paixão, outros alma, outros ainda nomeiam como esperança. O verão faz bem para os amigos. Eram homens e mulheres sentados em volta de uma mesa. A dona da casa preparava ostras, trazia vinhos e cervejas e ria, ria como só quem sabe receber bem pode rir. Um músico, um poeta, um casal de teatreiros, uma produtora cultural, uma artista plástica, uma adolescente, uma arquiteta compunham a cantilena de recordações, vergonhas, paisagens, passagens, encontros e desencontros. Havia um certo lamento irônico em algumas vozes, uma certa felicidade bem construída no casal, reforçador de que o amor se constrói melhor na semelhança, nos interesses comuns, nos olhares  parecidos do que naquele provérbio questionável de que os contrários se atraem. Os contrários podem se atrair, mas o quanto a força de tal atração de contrários diminui a força do amor? O quanto a diferença é terreno fértil para o amor.

Os assuntos, vindos entre risadas, ficaram naquela batida quase única: relacionamentos. Como estão, o que eram, para onde vão os relacionamentos. Daqueles que perduram aos que duraram um certo tempo; daqueles que estagnaram ou perderam-se num passado àqueles que ainda voltam, seja nas mentiras de um ex-marido ressentido ou de uma ex-namorada toda feita em ódio. Relacionamentos não apenas amorosos, mas profissionais, de amizade continuada, amizade perpassada por vinho, cerveja e o que mais viesse, que a noite era pequena para aqueles seres falantes. Quer dizer, quase todos falantes: a adolescente era bastante feita em silêncio. Havia nela um deslocamento, um não pertencimento àquele mundo de adultos tão cheios de certezas e também irresolutos, cheios de memórias, de passados, de coisas que ainda não podiam ser expostas à garota e também cheios de futuro, de planos, de segundas-feiras mantenedoras e de finais de semanas que se tornariam eternos.

Quase todos estavam ambientados, acostumados entre si. O músico era recém-chegado à cidade, tatuagens cobrindo o braço, talvez fosse o mais exótico daquela tribo que se sentou ao redor da mesa para comer ostras gratinadas. Falava dos projetos, atrás de sua voz grave havia alguma esperança de que vir para essas terras do Sul lhe faria bem, a artista plástica com sua elegância clássica e sua voz calma contrastava com a efusividade da arquiteta e da própria dona da casa. Porém, mesmo em terrenos comportamentais diferentes, a busca, o olhar, a luta por uma vida mais plena, mais ardente na poesia estava em todos ali, inclusive no poeta. Ele era o mais recente naquela turma de falantes. Justamente ele, que tanto apego tem às palavras, falou pouco para ouvi-las, para captar em cada palavra proferida naquela reunião um fragmento, um pedaço de sonho e destino, agora incorporados aos seus próprios sonhos e destino.

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