A CASA DA HILDA

A CASA DA HILDA 

POR MARCO VASQUES 

Publicado no jornal Notícias do Dia [26/12/2011]

 Juntam-se uns jovens ousados e criativos. Ocupa-se uma casa de propriedade de uma senhora, já morta, chamada Hilda. Acrescentam-se uns textos da poeta Hilda Hilst e dois diretores muito jovens e inteligentes. Una-se a tudo isso muita referência cinematográfica que vai de O Anjo Exterminador; Feios, Sujos e Malvados; Último Tango em Paris; Deslizamentos Progressivos do Prazer; Edukators e mais referências das artes visuais. Costura-se uma dramaturgia com esse caldeirão e, pasmem, temos um trabalho perturbador e de incrível beleza estética.

Trata-se do espetáculo “Hilda”, que aconteceu na Rua Munique, 85, no bairro Córrego Grande, nos dias 16, 17 e 18 de dezembro. Os diretores Felipe Pinho e Renato Grecchi entenderam que teatro é risco e se jogam numa aventura poético-teatral em que as fronteiras são esgarçadas ao máximo, o desconforto e o deslocamento flertam com o gozo, com o prazer. Sanidade e insanidade se confundem. Belo e feio se irmanam.

Eles conseguem fazer com que o jovem elenco (Priscila Marinho, Marina Soares, Tuany Fagundes, Luana Leite e Bruno De Alencastro Grandi) conduza os espectadores pelos cômodos da casa, perfazendo um roteiro de mergulho na memória e no esquecimento. Parecem nos fazer indagações já sugeridas por Tadeusz Kantor: o que fica de vivo na morte do outro? O que posso deter do mundo material que o outro ocupou? As coisas, os objetos carregam que parte de nossa memória? O grupo se apropriou da casa e também dos objetos, roupas e, claro, da atmosfera que Hilda, a antiga moradora, deixou ao morrer.

Com referências às teorias sobre o espaço cênico de Richard Schechner e Augusto Boal, “Hilda” nos provoca prazer estético, perturbação, deslocamento, fratura e um desconserto terrível. Reservada as devidas proporções, é possível comparar o experimento dessa moçada – pois são todos estudantes – aos espetáculos “Luis Antônio – Gabriela” de Nelson Baskerville e “Cabaré Stravaganza” do Rodolfo García Vázquez, ambos em cartazem São Paulo.Acomparação é possível porque “Hilda” é dessa linhagem de espetáculos em que o espectador tem um reencontro com a vida e suas nervuras.

 Assessorados por Leandro Lunelli (técnica) e Luiz Ricardo Martins (arte visual) essa equipe de estudantes conseguiu criar na casa da Hilda momentos de invenção poética de meter inveja em muitos doutores que praticam, sem nenhuma cerimônia, uma arte tão amorfo quanto os seus diplomas colados nas paredes. “Hilda” é um espetáculo ousado, inteligente, saborosamente triste e alegre ao mesmo tempo. “Hilda” é coragem e poesia.

 

           

 

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