NOVO E IGUAL

                       2012 NOVO E IGUAL

POR RUBENS DA CUNHA

Publicado no jornal A Notícia [28/12/2011]

1. Buscou na TV algo novo. Lugar errado. Novidade e televisão pouco combinam, ainda mais no final do ano em que tudo se repete: os mesmos especiais, o mesmo tom nas reportagens, a mesma revisão do ano que finda e as previsões do ano vindouro. Ouviu os sucessos musicais do momento: a mesma indigência rebolativa da última década. Na programação do cinema nada que já não tenha visto. Todos os lugares onde o seu dinheiro pode levar já foram visitados e, provavelmente, continuam os mesmos. Tentou alguma novidade na família e nos amigos: eles parecem muito com a TV. Alguns seguem a vida de sempre, outros enfrentam os mesmos problemas, outros fazem e se desfazem de planos e relacionamentos. Tudo de acordo com a normalidade, com o previsível. Este ver antes, este prever que não é adivinhar, acertar o que virá, mas saber que, de maneira geral, tudo cairá numa repetição infinda. Talvez um ou outro acaso, um ou outro percalço, tropeço, mas nada que rompa a ordem das coisas. Sabe que a vida é assim um fluxo de ação e reação, porém tudo dentro de limites demarcados. Qualquer quebra na rotina é passageira, seja uma catástrofe, as férias ou o amor.

2. Mais uma vez chorou com o especial de fim de ano na televisão. Tão lindo a solidariedade humana ressaltada pela música, pela comoção dos apresentadores e repórteres. Acha muito importante esse momento no final do ano, é o resumo, a análise, a vida se verificando e se renovando a partir disso. Gosta também das músicas da moda, não liga para o que dizem, são músicas feitas para que o corpo se remexa e depois se apazigue. Desde que se entende por gente, vai para o mesmo lugar no final de ano e a cada ano há algo novo, diferente, algo se alterou no local. Os amigos, a família, cada um com sua vida seguindo, a cada dia uma surpresa, uma esquina desconhecida, um acontecimento que alterará a rota, desviará, mesmo que por alguns momentos, a rotina, essa aparência de que tudo está e continuará igual. É só aparência mesmo, pois nada se repete, nada fica na mesma. Os ponteiros do relógio podem até fazer o mesmo caminho dentro do relógio, mas fora dele tudo é diferente, tudo se configura novidade. É só olhar a natureza em sua constante e ininterrupta mutação. Isso é o maior encantamento da vida: tudo muda, talvez a única coisa que permaneça igual seja o amor.

1.2. Mais uma manhã igual.

Outra manhã diferente.

2012, talvez ainda reste uma esperança de grande alteração da ordem: catástrofe ou o amor.

2012, um pouco mais de permanência, de estabilidade, de olhar o mundo sem tanta mudança, sem tanta novidade, talvez um amor mantido diariamente com a calma e a surpresa necessária.

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