HASSIS E O MURAL HUMANIDADE

 HASSIS E O MURAL HUMANIDADE

 POR MARCO VASQUES 

Publicado no jornal Notícias do Dia [02/21/2012]

Conhecemos uma civilização, um país, uma cidade e mesmo uma vila pela maneira como tratam seus artistas. O artista é aquele que vem à sociedade sem petição. Ninguém exige a existência de um artista. Ele é fruto da mais pura teimosia. Um ser que não se submete à funcionalidade diária, ao grito da moda e da hora.

É um ser que prefere a turbulência, a nevralgia e o vão do abismo ao pacífico ruminar das horas. O artista é um construtor de nadezas, nadezas que modificam uma vida, uma geração, um século, uma civilização. O artista é a alma indócil do seu tempo. Não raro o meio em que vive lhe traz tormentos e agruras.

Não são poucos os exemplos de artistas que pagaram caro pela insistência de percorrer as sendas da menos-valia: Schumann amargou fétidos quartos de pensão para compor suas sinfonias. Wagner foi de Paris a Bordeaux a pé à procura de algum emprego que lhe desse o que comer. Próximo ao teatro de Bordeaux, com a carta de recomendações nas mãos, resolveu lê-la. Imaginemos Wagner, na penúria em que se encontrava, lendo a carta: “Querido maestro: não sabendo como me livrar desse pobre-diabo que vai procurá-lo, dei-lhe esta carta. Livre-se dele como puder.” E assim tem sido o navio fantasma de nossos sonhos.

Há uma tendência obscura de se descartar um artista e sua arte. Não precisamos ir longe; aqui ao lado de onde escrevo estas linhas, uma pintura intitulada “Mural Humanidade”, obra de Hassis, realizada em 1978, que ocupa as paredes internas do antigo altar-mor e parte da nave central da Igrejinha da UFSC, está em acelerado processo de deterioração. Está em inadmissível estado de ruína.

O imenso painel possui160 m². Belo, ainda que em derrocada, implora por suas cores originais. Um personagem do “Mural Humanidade” chega a alertar: “é isso aí: estamos na época em que se investe mais em ciência que em arte”.

O fato é que o “Mural Humanidade” é a maior obra do artista, foi feita sem custos para a Universidade Federal de Santa Catarina, que tem a obrigação e o dever de restaurá-la. Será que não encontramos uma mente sábia para perceber os valores artísticos, humanos, estéticos e históricos da obra de Hassis?

No local em que teses e dissertações são defendidas com frequência, muitas sobre artistas e suas obras, morre uma obra de valor inestimável. Eis a nossa vila. A coisa é simples: restaura-se a Igrejinha da UFSC e o “Mural Humanidade” e teremos mais motivos para frequentar a Universidade, para pertencermos a ela. Eis um desafio para a dupla feminina que assumirá a UFSC, se conseguirem: ouro para elas, não prata!

 

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Uma resposta para “HASSIS E O MURAL HUMANIDADE

  • Sônia Maria Fortes Concatto

    É, há uma pobreza de percepção a certas coisas que fazem a diferença na história, seja do indivíduo que faz a sua história e a dos que ali estão inseridas no tempo e espaço.
    Aí se faz presente outro ator, que também está inserido, com sua voz, clamando por um olhar, por detalhes significativos tanto pelo dono da história, quanto aquele que está inserido.
    A escrita,a critica nos chama para isto.
    Parabéns pelo texto.

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