SOL E CHUVA – CIDADE E PESSOAS

SOL E CHUVA. CIDADE E PESSOAS

POR RUBENS DA CUNHA

Publicado no jornal A Notícia [11/01/2012]

Sol e chuva o tempo todo. Algumas vezes juntos, noutras separados. Ao Norte, uma nuvem despejava suas águas sobre a cidade. Ao Leste, o sol resplandecia, alegre por ser verão e estar mais próximo do hemisfério Sul. Embaixo, os humanos vagam em suas armaduras de metal. Alguns escapam da chuva, só veem os vestígios líquidos sobre o asfalto. Outros, escondem-se sob as marquises. Reclamam da loucura do clima, saíram de casa sem guarda-chuva, foram molhados de surpresa, como se um filhote de Cumulo Nimbus estivesse de pirraça com eles.

Num dia que intercala sol e chuva, todos sabem que não há estabilidade. O que acontece em um momento logo passará. Logo o sol liberará novamente o caminho, o passeio, as compras, os negócios, as burocracias que precisam ser feitas. Logo a chuva atrapalhará os diálogos, o trânsito, o comércio sobre as calçadas, as burocracias que precisam ser desfeitas. Mesmo num dia em que não há decisão do clima, a cidade não pode parar, precisa cumprir os motivos de sua existência.

Precisa manter nela os homens envoltos no turbilhão, presos aos compromissos, aos acertos, às conquistas, aos enganos. Um dia de chuva e sol, mais do que casamento da viúva ou do espanhol, é um acontecimento poético sobre as pessoas acostumadas a uma coisa ou outra. Ou chove ou faz sol. Ainda somos muito “ou-ou”. Chover e fazer sol no mesmo dia é o jeito que a natureza tem de nos dizer que poucas coisas são “ou-ou”. Tudo parece melhor quando não há escolhas, dúvidas, quando podemos ter, sem culpa, a completude de um “e-e”. Um dia de sol e chuva, concomitantes, é um espelho do que a cidade é, do que as pessoas que fazem a cidade são: espaços contínuos de melancolia, felicidade, cinzuras e azulescências.

 Qualquer cidade, qualquer pessoa não é apenas um dia de chuva, ou um dia de sol, mas o misto, o dúbio, o entre um e outro. Isso é mais fácil perceber de fora, olhando o outro de fora ou a cidade de cima, à distância. Ao nos aproximarmos, perdemos a visão panorâmica, fechamos o ângulo e ainda desejamos a simplicidade unitária: chuva ou sol, isto ou aquilo. No clima, um dia que entremeia-se entre o seco e o molhado é raro, mas na vida, aqui embaixo, no rés do asfalto, é mais comum. Embora a busca seja quase sempre pelo azul, pelo sol, pelo dia bonito. Estar feliz é bom, mas desperdiçar essa felicidade em risos, mensagens, gestos, é falsificar a contenteza. Estar triste é ruim, mas enfrentar a tristeza com mais tristeza é valorizar o sofrimento.

Pode parecer tolo e é: mas um dia completamente azul só tem seu valor porque houve antes, ou haverá depois, o dia chuvoso. Hoje fez sol e choveu o dia todo sobre a cidade e as pessoas. Esse acontecimento prolongou-se noite a dentro: a chuva continua seu trabalho de molhar alguns cantos, já o sol foi substituído pela “cândida lua”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: