Hilda Hilst, A CRONISTA

HILDA HILST, A CRONISTA

POR RUBENS DA CUNHA

Publicado no jornal A Notícia [18/01/2012]

No dia 25 de junho de 1994, Hilda Hilst publicou no jornal “Correio Popular de Campinas” a crônica “In Dog we Trust ou Mundo-cão do Truste”. O primeiro parágrafo diz assim: “Minha vontade é de colocar cada vez mais poesia neste meu espaço, para encher de beleza e de justa ferocidade o coração do outro, do outro que é você, leitor. Porque tudo o que me vem às mãos através da televisão, tudo o que me vem aos ouvidos através do rádio é tão pré-apocalipse, tão pútrido, tão devastador que fico me perguntando: por que ainda insistimos em colocar palavras nas páginas em branco?”.

A interrogação ainda permanece, pois tudo o que incomodava Hilda Hilst no começo dos anos 90 permanece incomodando hoje: a violência, a corrupção, a impunidade dos políticos, a passividade da sociedade, a hipocrisia, o preconceito. O caminho escolhido por Hilda Hilst nas crônicas foi de mesclar a indignação com poemas e com breves narrativas, transitando sempre entre a poesia e o deboche.

Estes são dois atributos humanos capazes de manter os artistas em pé, produzindo, vivos mesmo. Se não fosse a poesia e toda a sua dimensão de mistério, de loucura, de imaginação, as manifestações artísticas já teriam sucumbido há muito frente ao descalabro que nos metemos. O deboche também ajuda, também fortalece alguns artistas na sua permanência constante de inadequado, de gauche, como diria Drummond. A sobrevivência pela poesia e/ou pelo deboche não serve apenas para os artistas, mas para qualquer pessoa com um olhar menos adestrado, menos manso frente às imposições da mídia, da religião, da propaganda.

Hilda Hilst sabia disso e praticou durante toda a sua trajetória literária, com um enfoque ainda maior durante os três anos em que atuou como cronista. Uma de suas criações mais debochadas (e por que não poética?) foi o EGE (Esquadrão Geriátrico de Extermínio), em que várias senhoras da terceira idade, Hilda inclusive, invadiriam os comícios, os palanques, as Câmaras, o Senado, com bengalinhas em ponta, uma ponta estilete besuntada de curare, um poderoso veneno, e agiria no exterminaria os corruptos. Nas palavras de Hilda: “Espetaríamos as perniciosas nádegas ou o distinto buraco malcheiroso desses vilões, nós, velhinhas misturadas às massas, e assim ninguém nos notaria, como ninguém nota a velhice. Nossas vidas ficariam dilatadas de significado, ó que beleza espetar os bundões assassinos, nós faceiras matadoras de monstros”. Se estivesse ainda hoje escrevendo crônicas, entre um poema e outro, Hilda Hilst insistiria na criação do EGE. Pois parece que apenas um grupo geriátrico de extermínio seria capaz de dar jeito nessa insistência que a maioria dos políticos têm em manter velhos privilégios.

As crônicas de Hilda já foram escritas há quase 20 anos, mas ainda continuam pertinentes, pois a sua poesia é eterna e o seu deboche serve muito para os nossos dias, bastando apenas trocar os nomes das “otoridades” envolvidas.

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