A MANCHA DA PALAVRA

Por Rubens da Cunha.
Cronica Publicada no Jornal A Notícia, dia 15/02/2012

A vida branca da tela do computador exige a mancha da palavra. Qual palavra? Quais serão as escolhidas para borrar com algum sentido essa cama que as espera? O escritor pensa nos verbos, nos substantivos, locomotivas da língua, e depois parte para os vagões: adjetivos, advérbios, pronomes, mas nada se manifesta firme, capaz mesmo de preencher o vazio. O jeito é arriscar mais uma vez a pensar o instrumento. Usar a linguagem para falar dela mesma, usar a palavra para trazer a palavra à tona. Talvez seja uma operação arriscada. É como se o cirurgião ficasse mais fascinado com o bisturi do que com o corte no corpo do paciente, ou o músico tivesse mais amor pelo violão do que pela música que ele é capaz de produzir.

Cada palavra é um conjunto intrínseco entre a sua forma física, aquilo que chamam de significante, e a sua forma, digamos, intelectual, o significado. É igual ao corpo e mente. Interdependência constante, efetiva. Assim, escrever sobre palavras é isso: um arriscar-se sobre o objeto-palavra, mesmo que o escritor não consiga nunca abdicar do significado, ficando apenas com o significante. (Alguns poetas tentaram, mas lá no fundo, lá atrás do desenho da palavra, o sentido, seja ele qual for, grita).

O escritor retorna aos verbos, esse universo de palavras em que tudo é movimento, ação, além de serem as palavras mais megalomaníacas: a elas foi dado o poder de conter o tempo, de trazer essas três inexistências: o passado irrecuperável, perdido, travestido em memória, história, ficção, esquecimento, o futuro impossível, intangível, e a ilusão do presente, pois que ele é um fluxo constante, um instante e no instante seguinte ele já é passado. Tanto que há somente um tempo verbal para o presente. Passado e futuro conseguem desdobrar-se, ampliar-se conforme as necessidades da linguagem. Dizem os manuais de auto-ajuda: “Viva o presente”. Para dar conta desse conselho é preciso sempre abarcar um pouco do passado e um pouco do futuro. Para isso, inventamos os verbos. Eles são viajantes do tempo. São eles que realizam o sonho humano de ir para além, ou para aquém, do instante-já. São eles que nos localizam, nos temporizam, nos colocam dentro da memória ou dentro da esperança.

Se os substantivos servem para nomear, para estabelecer nosso vínculo com tudo o que nos cerca, seja concreto ou abstrato, é do verbo a capacidade de trânsito, de ir e vir, de por lenha na fogueira, de fazer com que nos sintamos vivos e donos da linguagem.

O escritor olha novamente para a tela, já não é mais branca, já está manchada por palavras que pensam a própria palavra. Talvez não fosse o mais adequado para o momento, talvez ele devesse se esforçar mais e sair de seu pequeno mundo metalinguístico, porém foi o que conseguiu extrair de sua matéria-prima: mais uma cantata de louvor à matéria-prima.

Rubens da Cunha

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