A MISOLOGIA NOSSA DE CADA DIA

Crônica de Rubens da Cunha publicada no dia 07/03/2012 no Jorna A Notícia

Lendo o velho e bom Platão, descubro a palavra “misologia”, cujo significado é “ódio ao raciocínio, à lógica, e horror às ciências”. Ao consultar o dicionário descubro outros ódios que usam o radical grego “miséo-ô”. Dois famosos são a “misantropia” que é o ódio à sociedade, e a “misoginia” que é o ódio às mulheres. Outros curiosos são a “misofobia”, que é temor doentio dos contatos por receio de infecção ou contaminação. Temos também a “misogamia”, que é o horror ao casamento. Há uma variação da misologia que é o “misoneísmo”, a aversão a tudo o que é novo, ideias, costumes, formas de arte, ressaltando que a aversão não é fundada em nenhum princípio filosófico ou existencial, mas, unicamente, porque vai contra aquilo que é estabelecido. Outro ódio é a “misopedia”, que é o ódio à instrução, parente direto da “misossofia” aversão ao saber, e à ciência.

Lá se vão, mais ou menos, uns 2,4 mil anos que Platão e outros filósofos gregos estabeleceram alguns patamares para o pensamento racional e lógico, no entanto, alguns desses ódios ainda permanecem cada vez mais atuais. A misologia ainda determina muito das relações humanas. Basta dar uma olhada nos momentos históricos em que a cegueira política, religiosa, armamentista e racial determinou os rumos da humanidade: cruzadas, inquisição, escravidão, nazismo, terrorismo, invasões arbitradas pelo poder econômico, genocídios amplos e irrestritos, etc. As grandes catástrofes praticadas pelos humanos contra seus iguais têm como um dos pilares a misologia.

Na cabeça dos promotores dessa bagunça toda, é como se o ódio à lógica, ao raciocínio se aliasse com o amor ao poder, ao dinheiro. A partir disso, temos uma combinação explosiva que vai controlando a massa, impondo verdades limitadas e únicas, destituindo liberdades, matando gente, seja física ou mentalmente, pois a misologia atual ultrapassou em muito as altas esferas do poder, anda bem forte na cabeça da gente comum. Para cada avanço da lógica, da razão, da igualdade de direitos, da ciência, há um retardo religioso, moral, preconceituoso, aferrado a velhas práticas que já provaram ser inócuas. Claro que esse embate sempre houve. Parece ser condição primordial das relações humanas. O homem não deixou de avançar cientificamente, mas também não deixou de odiar esses avanços. Não deixou de investigar o nosso passado remoto, o espaço, o DNA, mas também não deixou de dar poder à religião, ao misticismo de toda ordem, à fé no divino. O problema não é o embate, é a violência, o uso de um lado para se impor ao outro. A falta de equilíbrio, de respeito à condição alheia. Só que olhando o passado coube aos misólogos as maiores afrontas à vida humana. O irônico é que muitos usaram justamente avanços científicos para conseguir seus intentos. Esquecem todos que o fim será o mesmo: no fim virá para eles o que eles impuseram aos outros: a indesejada das gentes

Rubens da Cunha

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