AS VERDADES E AS MENTIRAS

AS VERDADES E AS MENTIRAS

 POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [12/03/2012]

O poeta Dante Milano, um dos grandes poetas que Bruzundangas insiste em não conhecer, tem um poema em que ilustra bem o drama de Valtinho, o neto da Dona Lindomar. O “Poema do falso amor” coloca o amor no patamar da invenção. E, claro, se a invenção for verdadeira ou falsa, isso pouco importa, pois o importante é que o inventor acredite na invenção para tornar seu amor verdadeiro, ou falso. Mario Quintana já disse que “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. O que não deixa de ser uma verdade.

O problema de Valtinho é que ele se parece com aqueles meninos que, quando entram na água, já vão logo gritando socorro, socorro! A gritaria toma conta do espaço. Alguém pula na água para salvar o pilantra que começa a rir para indignação de todos. Tais brincadeiras da infância, pura carência afetiva, Valtinho levou para a vida adulta. E é exatamente aí que o drama dele se encontra. Valtinho é um desastrado no campo do amor.

 É ele se interessar por uma mulher e vai logo descobrindo que ela é casada, noiva ou que tem namorado, e, o que é pior, ama imensamente o felizardo. Mesmo azarado é mulherengo e tem algumas conquistas no currículo. Já namorou a atendente da padaria, a menina do mercado, a vizinha do andar de cima, a cabeleireira do bairro, duas médicas, uma enfermeira, uma atendente do Banco de Bruzundangas, um mineira no carnaval, duas professoras e, claro, quase todas as primas. Foi amante de algumas mulheres casadas e chegou desfazer uns dois casamentos, além de ter passado por três noivados.

No entanto, se Valtinho somar todos os foras que já recebeu, teria condições de concorrer com a lista telefônica de qualquer estado da república de Bruzundangas. E não há nenhum exagero aqui. Depois de muito cotejar as mulheres, de se dizer um amante convicto de todas as belas da cidade e de olhar para todas com aquele olhar de invasão e concupiscência, resolveu, definitivamente, encontrar um amor, isto é, inventar um amor. E inventou.

 Tal qual a verdade ou a mentira, o amor é uma questão não só de invenção, mas de reinvenção. Só assim se pode amar alguém firmemente e de modo duradouro. Valtinho mirou na menina solteira mais bela do Córrego Grande e começou com artilharia pesada: flores, e-mails, bilhetes, cartas, poemas, convite para jantar, cinema, teatro e vinho. E nada! A escolhida, sempre cautelosa e incrédula, esquivou-se o quanto deu, e deu. Aceitou o pedido do falso amor, que por magia do imaginário, virou um verdadeiro falso amor. Ou seria um falso verdadeiro amor?

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