Tributo a Severo Cruz

TRIBUTO A SEVERO CRUZ

 POR MARCO VASQUES

 Publicado no jornal Notícias do Dia [19/03/2012]

Orfeu, depois de ser totalmente despedaçado, renasce para entoar sua lira, para cantar o mundo e para o mundo. Zagreu ressurge como Dioniso após Zeus salvar seu coração destroçado pelos inimigos. A mortal Sêmele engole o coração de Zagreu e dá luz a Dioniso. Fênix também renasce das cinzas, na sua eterna autocombustão. Sísifo está condenado ao movimento circular do infinito sacrifício. Prometeu é devorado por abutres, pois ele ousou ser incendiário, morder a língua do saber.

As metáforas dos desaparecimentos e dos ressurgimentos míticos serão incorporadas, no dia 31 de março, no Teatro Pedro Ivo. Nessa data acontecerá o espetáculo “Tributo a Severo Cruz – Renascer das Cinzas”. O ator e músico, nosso misto de Orfeu e Téspis, receberá inúmeros músicos para um espetáculo solidário, pois sua casa, móveis, instrumentos e figurinos-cenários foram, feito Fênix, incinerados no início de fevereiro. Pelo caos do acaso, sua moradia esvaiu-se em chamas, deixando o artista, que tem no nome o adjetivo severo e o substantivo cruz, sem um local para abrigar seu sono e seus sonhos.

Como a matéria do sonho pode ser compartilhada em todo e qualquer espaço, artistas e amigos aceitaram o desafio de sonhar uma nova casa para Severo Cruz. Na data prevista, ele será recepcionado por Denise de Castro, Cláudia Barbosa, Raquel Barreto, Marcoliva, Tatiana Cobbett, Verônica Kimura, Sueli Ramos, Joana Cabral, Jeisson Dias, Álvaro Carioca, Júlia Coelho, Neco, Fidel Piñero, Net Platt, Marco Aurélio, Juan, Reizinho, Zeca Catarina, Jorge Lacerda, Luiz Sebastião, Chico Pinheiro, Marcelinho Vieira, Leandro, Jandira, Júlio Coelho, Mario Marçal, Luiz Gustavo Zago, entre outros amigos e músicos, que estão engajados no renascimento de uma nova morada para o artista.  

Vale rememorar que foi igualmente nesse dia que se instaurou uma fase cinzenta da história brasileira, a Ditadura Militar. Aliás, até hoje esperamos por acesso às documentações, procuramos por notícias de desaparecidos, esperamos por punição aos inúmeros assassinatos, torturas e toda sorte de crueldade.

Entretanto, nessa data, nossa cidade poderá abrir a voz e cantar aquela letra do Martinho da Vila: “Vamos renascer das cinzas/Plantar de novo o arvoredo/Bom calor nas mãos unidas/Na cabeça de um grande enredo/Ala de compositores/Mandando o samba no terreiro/Cabrocha sambando/Cuíca roncando/Viola e pandeiro…”.        

Este é um convite para “plantar de novo o arvoredo” e viver a celebração da arte e da amizade. Todos os caminhos, no dia 31, levam ao Teatro Pedro Ivo.

 

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