Amanhecer

Crônica de Rubens da Cunha, publicada no Jornal A Notícia, em 21/03/2012

Ele amanhece em outra paisagem. Outra janela se abre nessa manhã quase fria. Ao lado, ainda dormem os outros que compartilharam com ele a noite anterior. Não sabe o que fazer. Na estante dessa casa em que está, livros em inglês e francês falam de mistérios, incógnitas, um mundo avesso do qual nunca participou. Abre alguns volumes, traduz algumas frases aleatórias, se perde na falta de vocabulário.

A vida muitas vezes lhe é assim: falta de vocabulário. Um esconder-se atrás daquelas cem palavras básicas e ali ficar. Sempre que o novo vier, sempre que for surpreendido por um sentimento, uma perda, uma alegria, usar a velha mentira do “faltam-me as palavras” seja para agradecer, agredir, despedir, acolher. “Faltam-me as palavras” sem perceber que não são as palavras que faltam, mas o acesso a elas, “falta-me a escada para pegar aquela palavra lá em cima”, deveria se dizer.

Lá fora, o pardal vive sua vida de pardal, o mesmo para o poste, o muro, o pé de ameixa, a garagem. A vida das coisas que apenas são, apenas estão no mundo, sem busca, sem desejo, sem nada além de apenas serem e estarem. Ele olha para seu corpo, um estrangeiro nessa paisagem, mas também estrangeiro no seu lugar. Lembra-se de um verso de uma amiga: tudo está em seu lugar, apenas eu a estrangeira. Percebe agora que é da condição humana esse estrangeirismo, esse pertencer de mentira à terra. Se toda a raça humana desaparecesse, a vida continuaria sem nenhum problema, quer dizer, menos para os bichos que estão presos e as plantas que precisam ser regadas. Porém, todo o resto se viraria, continuaria sua vida de ser e estar sem problemas. A ele coube ser humano, e como tal, coube pensar-se no centro de tudo; coube imaginar que há outra vida além do corpo; coube conhecer os pormenores desse corpo; coube lutar, matar, defender, solidarizar-se, perdoar, agredir, inventar, destruir, construir; coube ser um paradoxo sem fim.

Olha a janela, apesar da paisagem que se anuncia, do sol que acontece de novo e mais uma vez, sente-se desesperançado, sente algo de vazio. “Faltam-me as palavras”, pensa ironicamente, sabendo que o que falta não é a palavra, não é a linguagem. A linguagem nunca falta, a linguagem é a nossa melhor muleta, é o que nos mantém de pé, minimamente dignos frente à morte, a linguagem nos deu Deus, apesar de muitos crerem no contrário.

É manhã, tudo está no lugar em que deveria estar. Apesar do seu contínuo descentramento, fará de seu estrangeirismo um lugar, pensará que as coisas são assim mesmo, e que nada pode ser feito. Pensará que a vida acontece além de seu pensamento, além de sua visão limitada de mundo. Mas o que é o mundo? Senão a soma de todas as nossas visões limitadas? Senão pedaços de realidade que se juntam, se contradizem, se espelham, se desfazem na paisagem?

Rubens da Cunha

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