TRIBUTO A SEVERO CRUZ 2

CRÔNICA DE MARCO VASQUES  Publicada no jornal Notícias do Dia [26/03/2012]

 O poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Mãos dadas”, resume um pouco o que acontecerá no Teatro Pedro Ivo, no próximo dia 31 de março. Um coletivo de músicos entrará no palco para cantar a matéria presente, “a vida presente”. Todos cantarão para Severo Cruz, ator e músico que vive em Santa Catarina desde a década de 1980. Severino Dias Cruz já fez muito teatro, alguns filmes e é figura conhecida na noite da cidade. Infelizmente, ele não vem tendo bons dias. Ainda assim, é possível ver um espelho sorridente em suas lágrimas. Ver uma criança dançante em cada ruga e, sobretudo, é possível se embebedar com suas ideias e falas severinas.

Há pouco tempo Severo teve sua casa totalmente destruída por um incêndio. Ele, que sempre incendiou o mundo com sua arte, mas nunca desmaterializou ninguém, que fique claro, herdou apenas aquele silêncio que os circos costumam deixar quando desarmam suas lonas. Contudo, o silêncio será preenchido com muita música, num espetáculo especialmente preparado para reconstruir uma nova moradia em que possam habitar os seus sons e os seus silêncios. 

Dona Lindomar, que já passou do tempo de ter emoções fortes, dia desses foi almoçar com Severo Cruz, Jorge Coelho, Toucinho da Batera e Adriana Durante. E não é que a velhinha descobriu que a poesia pode estar em todo lugar, sobretudo num almoço com toda essa gente “meio maluca” que gosta de samba, bossa, música popular e inventar ideias móveis quase impossíveis de movimento? A conversa toda era mediada pelo inventor Toucinho da Batera. E foi aí que Dona Lindomar percebeu como perdeu tempo na vida buscado lógica e raciocínio para tudo que era questão. Toucinho é tão ilógico, mas tão ilógico que chega mesmo a ser um lógico dentro do caos inventivo em que vive.

De emoção em emoção, a velhinha foi se interando da conversa. Na verdade, ela pouco entendia. Porque para entrar na cabeça de uma conversa entre Severo Cruz e Toucinho da Batera, tem que ser muito cabeça. E, como sabemos, Dona Lindomar anda mal da memória por conta de suas inúmeras primaveras.  Mas, como diz a própria, o pior mal é não tentar.

Já a conversa entre Coelho e Durante, depois entendeu. Eles estavam reunidos para fazer um apelo a todos os artistas da cidade – o pessoal do teatro, da literatura, da música, da dança -, enfim, toda essa gente sensível e humana, para que compareçam ao Teatro Pedro Ivo, no dia 31 de março. Porque como diz Carlos Drummond Andrade “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/a vida presente.” Então, estejam presentes.

Marco Vasques

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