DONA LINDOMAR E SEU SOBRINHO

DONA LINDOMAR E SEU SOBRINHO

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [02/04/2012]

Mário sempre foi meio desajeitado com as mulheres. Na verdade, sempre foi muito ruim com elas. Nunca sabia por onde começar uma conversa com o sexo oposto. É que Mário pensa demais. E já se sabe: quem pensa demais acaba sozinho no final da festa. Porque a galera gosta mesmo é de finalizar tudo antes de começar. A coisa anda tão radical, segundo Dona Lindomar, que as mulheres usam uma espécie de bolso nas pernas. Sim, a vestimenta está tão curta que os bolsos andam à mostra, e por dentro! Dentro? É onde Mário deseja estar, mas a timidez o impede de avançar floresta adentro.

E não é que a Dona Lindomar resolveu ajeitar a vida do sobrinho? Conhecedora como ninguém da arte de amar, pois tem mais hora de novela que urubu de voo, saiu logo dando o roteiro da cidade para que o solitário Mário conseguisse um beijo de final de semana, pelo menos. E ela foi logo desfiando o rosário para que o traquina conseguisse identificar o alvo. Passou para ele a lista completa de características e dados: a mulher problema, a objeto, a neurose a múltipla dos órfãos, a inteligente, a independente, a autoritária, a carente, a sensual e a frígida. Enfim, Dona Lindomar, no auge de sua ciência, adestrou Mário para a noite.

O que Mário não contava, muito menos Dona Lindomar, é que Maria Luiza fosse uma mulher diferente, mas tão diferente, que ele, para o alívio das meninas do prédio – que não suportavam mais seus olhares lascivos -, conquistou a Luizinha. Sim. Ela não estava na lista de manias femininas da Dona Lindomar. Não se encaixava nas descrições minuciosas da nossa velha querida. E o problema de se relacionar com uma mulher, aparentemente sem personalidade ou mania, é justamente o de não se conhecer as contraindicações da conquista.

E foi assim que Mário adentrou no mundo feminino. A coisa começou com um olhar tímido, depois passou para um beijo desajeitado. Daí o resto todo mundo pode imaginar. O que vem depois é que é estranho. Porque Mário, embora não seja comerciante, passou a ter problemas em metros, ou melhor, com Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, o tal do Inmetro. Maria Luiza, na primeira chacoalhada desorbitou-se toda. Lábios, bunda, seios e as curvas mais insuspeitas saíram do trilho e fizeram de Mário um refém dos testes de qualificação. Não tem semana que o coitado não veja alguém aferindo, em algum consultório, o corpo da Luizinha. Até nisso o pobre é azarado. Demorou mais de vinte anos para conquistar uma mulher e, quando consegue, tem que ver toda sorte de homem e mulher aferindo as prioridades.

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