O VISITANTE E OS ENTREGADORES

Crônica de Rubens da Cunha, publicada no Jornal A Notícia, no dia 11/04/2012

Era a sua primeira vez na Capital. A tão sonhada Capital, vista pela TV. Trabalhou o ano todo, horas extras, economias e mais economias para conseguir chegar onde estava. Depois de deixar as malas no hotel, saiu olhando os prédios, aquele mundaréu de gente andando de um lado pro outro. Lembrou-se de sua pacata cidade. É uma dessas cidades que tem aos montes por aí: a praça central, a igreja de um lado, a prefeitura de outro, a câmara de vereadores, duas ou três lojinhas, uma lanchonete, um Besc que agora virou Banco do Brasil. Aquele povo de sempre no baile do fim de semana. Muitos gostavam disso e ficavam por ali. Ele era um desses: tinha arranjado um emprego, morava com os pais, tentava um “rolo” com a vizinha, saía com os amigos, um cara normal. Mas tudo isso tinha ficado pra trás, pelo menos nas próximas duas semanas, porque agora ele estava sozinho na capital.

Depois de ter passado o susto pela quantidade e tamanho das coisas que via pela primeira vez, percebeu que quase tudo era igual na sua cidade: a igreja, a praça, agências bancárias, lanchonetes. Porém, já no primeiro dia descobriu que alguém trabalhava em algo que seria impossível na sua cidade: o entregador de folhetos de “escritórios” onde mulheres vendiam o corpo. Ele aceitou o primeiro mais por educação. Leu e se assustou: no papelzinho a foto de uma mulher de biquíni com o rosto borrado, em letras maiores os predicados profissionais da moça, abaixo o endereço. À medida que ia andando, ia recebendo mais e mais papeizinhos oferecendo prostituição em horário comercial. Sem dúvida, na Capital as coisas eram diferentes. Quando em sua cidade alguém haveria de ficar o dia todo na rua principal distribuindo folders da única boite que havia na região: a Sólove. E o pior: a Sólove só funcionava de noite. Na Capital, as coisas começam às 9 horas da manhã.

Ele, claro, ficou curioso, mas com medo de procurar um desses lugares. Tinha que pensar melhor, mas no fundo não era isso que o estava perturbando: era o fato de que vários homens trabalhavam como entregadores dessas propagandas. Confessou a si mesmo uma certa inveja. Pudesse também passaria o dia todo fazendo isso. E o pagamento: qual seria o pagamento? Seria que a profissional pagaria em serviços. Como se consegue um ‘bico’ desses? Tem que conhecer quem? Ganha comissão por cliente conquistado? Eram perguntas que ele se fazia enquanto andava pelo centro da Capital, recebendo mais algumas propagandas. Voltou para o hotel com vários papeizinhos no bolso: Bianca, Moranguinho, Sheyla, e outras sem apelido prometiam a felicidade em salas comerciais do centro da Capital. Naquela noite ele sonhou, não com a felicidade prometida, mas com a possibilidade de não ser mais um visitante na Capital, mas um decente entregador de divulgação da atividade mais antiga do mundo.

Rubens da Cunha

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