A RUA DAS PALMEIRAS. Crônicas de Rubens da Cunha

A RUA DAS PALMEIRAS

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 18/04/2012

Eu tenho 90 anos. Quando li sobre o novo projeto da rua das Palmeiras, resolvi ir ao Centro de Joinville para dar uma última olhada na cara que a alameda teve nas últimas quatro décadas. A rua está sendo remodelada. Eu queria que a vida fosse assim também. Cansou, remodela. Perdeu o contexto, o uso, a praticidade, remodela. Mas com a vida é diferente. Por mais que queiram nos enganar as cirurgias plásticas, com a vida, ou melhor com o corpo, não há remodelação, não há projeto novo que dê certo, não há requalificação possível.

Porém, com ruas, praças, cidades isso é possível, e ainda bem que é assim. Eu me lembro da última reforma que essa rua teve. Era 1973, quando um projeto remodelou tudo, transformou a rua das Palmeiras num bulevar, ou “boulevard”, talvez para honrar a alma francesa do plantador das palmeiras. Quando isso aconteceu, eu achei meio estranho transformar a rua num jardim, mas depois me acostumei. Agora, talvez, eu também ache meio estranho voltar a ser rua. Mas eu sou só um velho. Há muitas coisas que acho estranhas nessa cidade. Depois eu me acostumo, depois desacostumo. É um direito que me assiste.

Antes da reforma de 1973, eu sempre passava pela tradicional rua das Palmeiras. Achava engraçado que aquela fileira de palmeiras estivesse ali para agradar os olhos de um príncipe que por ali nunca esteve. Mais: que ao fundo, um palacete também tivesse sido construído com a mesma esperança. Tempos em que grandes obras eram feitas para agradar os donos do poder. Agora, olho para o alto das palmeiras e percebo que as coisas não mudaram tanto assim, as obras continuam a ser construídas para afagar o ego dos donos do poder político, do poder econômico. Não é à toa que chamam essas obras de faraônicas. Mas o que sei eu de faraós, políticos e obras? Sou apenas um velho que andou muito sob essas palmeiras.

Tudo o que eu desejo é que a nova versão, ou requalificação urbana, não danifique as palmeiras. Elas não merecem isso. Muitas ainda estão firmes esperando o príncipe e a princesa. Que este trabalho traga um novo viço à rua, à cidade. Pena que a requalificação urbana não se estenda mais um pouco que vire requalificação fluvial, afinal, o Rio Cachoeira não teve a mesma sorte das palmeiras. Mas quem sou eu para querer isso? Sou apenas um velho que viveu a vida toda nesta cidade. Um velho que teve a sorte de se parecer mais com as palmeiras do que com o rio. Não que se parecer com o rio seja ruim, é que ele foi assassinado e eu e as palmeiras estamos por aqui. Firmes e fortes.

Pronto, já tive minha cota diária de reflexão e saudosismo. Vou-me embora antes que um desses arqueólogos que andam por aqui pensem que eu seja um fóssil e me leve para um museu qualquer.

Rubens da Cunha

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