OS CORPOS E AS CIDADES – Crônica de Marco Vasques

Direto do Café El Vesuvio, Buenos Aires

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [16/04/12]

Walter Benjamin vê o capitalismo como uma grande religião. Na verdade, o capitalismo é uma espécie de religião-mãe que vai suplantando tudo e todos que não estejam orando em seu altar. O sacrifício do deus da moda é o expurgamento da vida, da vida concebida por ele, é claro. E por onde quer que andemos neste mundo, encontraremos os párias, os derrotados, os condenados a amargar a vida nas calçadas, nas vielas, nos morros, enfim, nas periferias. Tudo por não se adequarem à selva imposta, à busca de um prêmio que não existe, ao alcance de um sucesso vazio em si mesmo.

No capitalismo tudo tem preço e tudo está à venda. Amigo, amor, sexo, carinho, respeito e conforto são facilmente comprados em qualquer lugar do globo. Até nossas necessidades mais elementares, para serem supridas, precisam da benção de uma conta bancária e de um fundo monetário que sequer existe. Pois, até Dona Lindomar, que caminha triste pelas ruas de Buenos Aires – cheias de meninas em oferta, por trinta pesos -, sabe que todo sistema financeiro é uma grande ficção. Então é isso. Vivemos a ficção do capital. Fazemos da ficção nosso real.

Não bastasse vivermos para um mundo intangível e irreal, nos tornamos mais e mais iguais. É sempre a mesma coisa. Todos correndo para um destino onde se possa ganhar algo, mesmo que não se saiba o quê. Por isso Dona Lindomar gosta da calma triste dos mendigos e seus cachorros de olhares pedintes. Neles reside uma possibilidade de parada, uma possibilidade de protesto contra toda esta técnica, esta velocidade. É no expurgado que está um possível ressurgimento. Nos corpos fora da cidade, fora de um modelo de cidade, é que alguma diferença autêntica pode residir.

A diferença autêntica é aquela feita na carnação, no meio do caminho. Não no início e no fim, mas na travessia. Dona Lindomar, observando a arquitetura das pessoas e a psicologia das cidades tem feito demonstrações claras de que a diferença está na cidade e que as pessoas, comumente, são muito iguais em tudo. Estejamos na Avenida Corrientes ou na Travessa Ratcliff, no Kibelândia ou no La Brigada, na Feirinha da Lagoa da Conceição ou na Feira de San Telmo. O que muda é o ambiente e seus signos, porque as pessoas estão cada vez mais automáticas. Até o resto social produzido pelo capitalismo se torna tristemente igual na sua diferença. Sim. Não. Acordar. Dormir. Correr. Parar. Sirenes. Morte. Vida. Sim. Não. Sim. Sarah Kane e toda sua angústia, tão igual e comum hoje, nos aponta qual descaminho tomar. As peças Ânsia e 4.48 Psicose são retratos de nossos dias.

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