DOS ENCONTROS – Crônica de Marco Vasques

Directo de la calle Bolivar, Café POESÍA, Buenos Aires

DOS ENCONTROS

POR MARCO VASQUES

Publicada no jornal Notícias do Dia [23/04/12]

Ela olha para ele com a retina de abismo. Os olhares se cruzaram no imenso de suas solidões. Um homem, disse ela, um mistério se equilibrando na solidão do calendário. Quando menos percebe, a vida não é mais para ele, nada mais podem seus ossos frágeis. Passos firmes não mais. Apenas uma sentença de esquecimento logo à frente. Ela viveu em vias de precipitar a morte. Disse que os elevadores são seguros demais. Esteve por tentar um voo, mas recuou na lassidão de sua cama. Estendeu o corpo para a escuridão. Mas o barulho, o ruído, as falas, as gentes, o trânsito, todo o entorno lhe causava uma ânsia de alegrias vomitadas.

Ela cultiva sete loucos tatuados nos olhos. Quando deseja, solta um e outro louco pela boca e, quando quase liberto, recoloca o bicho em sua morada de origem. Fabricar fantasmas é tarefa muito gótica; prefere comer os fantasmas sem que eles saibam. Assim, não procria e não prolifera o coração para fora. Sim. Ela pensa que ter filhos é colocar o coração para fora do corpo. E nisso reside muita solidão. Aliás, do desejo à solidão estamos assim condenados. Uma condenação estranha esta de ser um coração estourando nas esquinas, competindo com o concreto, com o ferro e com toda a secreção do corpo.

Depois que sua avó morreu, ela descobriu, da forma mais dolorosa, que a distância para o amor é fragilidade. E que na lágrima do outro só Alice pode se banhar até o afogamento. Até o quase afogamento. Porque, como Alice, é necessário que se tenha várias formas, vários tamanhos na mesma vida. Senão o corpo não resiste ao primeiro impacto. A mesma luz que possibilita ver é um campo de escuridão. E assim, confessa ela, vamos sendo estas máscaras, estas couraças que construímos para sentido nenhum. E quando o sentido está quase drogado vem uma frase de abandono. Um sorriso de dentes perdidos, todos cantando Beethoven e Bach no esquife que dobra a esquina. São assim as contradições; a morte está sempre de vigília. Mas não deveria estar apagada?

Ele? Manteve toda esperança possível. Escondeu-se no canto esquerdo do olho direito que ela cultiva na saliva. Só sai de lá se ela o expulsar compulsoriamente. Navegaram horas por confissões e pedidos. Ao final da noite, a imagem de um homem – com pés de urso, gigantes, caminhando pela estrada, indiferente aos mil atropelamentos sofridos – vai se desfazendo na paisagem daquele encontro de palavras segredadas. Lavaram, juntos, os olhos com sabão em pó porque a coluna vertebral de suas vidas estava quebrada. Escolheram uma esquina para comer, noutro dia, doces e correntes de esmeraldas.

Marco Vasques

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