OS ARTISTAS E A PARVOEIRA – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia no dia 25/04/2012

OS ARTISTAS E A PARVOEIRA

Na semana passada, o colunista do “A Notícia”, José Antonio Baço retuitou uma frase atribuída a José Saramago: “É a perversão da escrita. Qualquer parvoeira que leve a assinatura de um escritor famoso é logo admirada”. Numa pesquisa rápida na internet não consegui comprovar realmente se a frase é de Saramago ou só “assinada” por ele para ganhar alguma moral. Aliás, na internet, esse artifício é bastante trivial, geralmente acontece com textos muito ruins que ganham assinaturas célebres. Não é o caso dessa frase que, sendo de Saramago ou não, resume muito como anda, não apenas a escrita, mas as artes em geral.

É cada vez mais comum encontrarmos exemplos dessa perversão da qual fala a frase acima. Este é um acontecimento que se dá em vários níveis e com vários tipos de artistas. Um dos tipos mais comuns são os artistas que conseguiram produzir uma obra respeitada e respeitável e que passaram a viver em função dessa obra. São aqueles que alimentam o público mais saudosista e se alimentam a si mesmos com aquela antiquada ideia do “no meu tempo é que era bom”.

Há também aqueles que são ouvidos porque foram alçados à condição de cânone. O que produziram nem é assim tão relevante, mas, de uma forma ou outra, eles se tornaram vozes a serem seguidas, a serem ouvidas e respeitadas. Qualquer ataque a instituição que é o nome desses artistas é tido como ofensa, heresia. Quanto mais provinciano for o lugar onde esse artista vive ou tenha nascido, mais isso acontece.

Outro tipo que produz muita “parvoeira” são os herdeiros. O pai ou a mãe foram artistas muito importantes, não raro, o filho ou a filha resolve seguir os passos dos pais famosos. Alguns demonstram talento próprio e costas largas para aguentar a comparação. Outros são editados, gravados, expostos, apenas porque tem o sobrenome famoso e os contatos certos. É muito irritante ver um herdeiro de pai e mãe perpetrando sandices artísticas, carregando um sobrenome que sempre primou pelo cuidado estético e ético em relação à arte. O problema principal dos herdeiros sem talento é o importante espaço que ocupam no mercado, na mídia.

Não nos esqueçamos dos incensados, aqueles que são o “melhor alguma coisa da última semana”. Num mercado artístico cada vez mais sem chão, sem referência e sem certeza, os incensados fazem a festa. Produzem sua arte e transmitem seu comportamento, quase sempre oco de qualquer sentido, e são cultuados por isso. Os incensados parecem ser intelectuais, eruditos, parecem fazer uma arte de rompimento com os padrões. Tudo fica, claro, no campo da aparência, ou melhor, no campo do incenso, essa fumaça cheirosa, mas que passa rápido.

O que consola é que estes modelos de artista dificilmente vencem o tempo. Só a consistência artística vence o tempo. Só a força inerente à obra de arte perdura dentro das pessoas. E esta força é trabalhoso e raro conseguir.

Rubens da Cunha

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