A CIDADE SEM PÁSSAROS – Crônica de Marco Vasques

Directo del la Calle Corrientes, Buenos Aires.

A CIDADE SEM PÁSSAROS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [30/04/2012]

O barulho faz com que seus olhos despertem para o mundo. Uns ruídos metálicos, umas buzinas maiores que a própria cidade, vozes de todo mundo e de ninguém invadem sua casa. Todos estão à mesa. É hora de tomar café. É hora de tomar banho. É hora de vestir o seu único paletó, um presente de seu avô. Guardou por anos a indumentária, pois sabia que seu corpo desenharia a ausência deixada pelo único familiar que foi capaz de amar. Colocou algumas pedras nos bolsos, para tornar o caminhar mais lento, e uns pedregulhos por dentro das meias. Estava cansado de sangrar sem sangue.

Já na rua perde-se pensando que tudo e nada dá no mesmo. Olha para os fios. Imagina as inúmeras conversas se cruzando pelos telefones. Um homem tenta suicídio, mas antes de se matar liga para uma amiga para dizer que a vida está insuportável e que desistiu. Um casal discute quem pagará o sanatório da tia solteirona. Uma mulher liga para o pai de seu filho e exige que explique o motivo pelo qual a criança volta sempre sangrando para casa após passar algumas horas com ele. Uns adolescentes trocando carícias. Homens combinando sequestros, assaltos, estupros e fraudes em licitações. Mulheres marcando manicure, cabelo e sexo. Todas as vozes, todos os desejos. O que realmente se realizaria de todo esse oceano de vidas e de ânsias?

Segue pensando nas múltiplas conversas dentro dos carros. O homem traído planejando o assassinato da mulher. Um menino sorrindo tenta parar a paisagem que passa veloz. Uma mulher, em silêncio, chora. Todas as vozes e todos os silêncios convergindo e divergindo. Nas ruas, as mesmas coisas se repetem. Sempre a mesma pressa, a mesma busca, a mesma angústia, os mesmos demônios e medos. Tenta buscar um pássaro na paisagem, mas nem um voo para aliviar o olhar. Nas vitrines das livrarias, as mesmas histórias da vida real traduzidas por outras vidas. Nos teatros, atores tentam jogar fogo no torpor em que o mundo se meteu.

Pensa em Édipo apagando os próprios olhos. Apagando a luz, este eterno símbolo do conhecimento e da consciência. Ele sabe que para coisificar-se tem que borrar a memória, não basta mergulhar na escuridão. Tem que matar os desejos. Arrancar o sentido dos sentidos. Tenta vomitar todos os pássaros que se instalaram em seu intestino. Só assim, livre para furar os olhos dos mil pássaros que habitam seu corpo, poderia se jogar ao abandono. Então, entrou no primeiro bazar que viu, comprou mil agulhas e passou a noite esperando, de olhos bem abertos, os milhares de voos que acumulou na cidade sem voos e sem pássaros.

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