A CEIA DOS IGUAIS

A CEIA DOS IGUAIS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [07/05/2012]

Ele tem um jeito assim, meio sem jeito mesmo. E tem uma teimosia em não aceitar algumas coisas: crianças ficando cegas por imaginarem um prato de comida, pessoas morrendo aos montes nas filas dos hospitais, pessoas abandonadas às ruas como se fossem bichos ou mera cópia de gente, pessoas sem ter o que vestir, o que comer, sem um lugar para aprender e onde abrigar o sono. Para ele, a humanidade poderia parar todo o seu processo civilizatório e suas urgências e concentrar suas energias para sanar essas obviedades ululantes.

Apesar da pouca idade, ele tem o hábito de enfrentar todo tipo de experiência. Na semana passada, por exemplo, inventou de ir almoçar numa casa comunitária que serve comidas para as pessoas que vivem na rua. Ele vai aos museus, às livrarias e bibliotecas com a mesma frequência que visita os mendigos, as putas e toda a escória indigente que vive nos baixios. Gosta de manter suas origens; então lê James Joyce pela manhã e vai conversar com as prostitutas da Conselheiro Mafra pela noite. Frequenta todo tipo de bar, do mais sofisticado ao mais pé sujo, sem distinção. E tem coragem suficiente para passar fome. O que não admite e jamais admitirá é que ele próprio vilipendie suas convicções.

Entrou na casa comunitária que serve, todos os domingos, algumas refeições aos desajustados. Entrou com o corpo tão cansado que só diferia dos seus iguais na vestimenta. Estivesse um pouco rascunhado por fora, todos diriam que se tratava de mais um traste triste e sem esperança. E imaginou logo que, se estivesse em andrajos, despertaria aquele asco travestido de preconceito das pessoas com as quais convive, que diriam sem cerimônia, apontando seus dedos acusativos e doutorais: vejam, mais um vagabundo perdido no álcool, nas drogas e que nada quer com o trabalho.

Nesse momento lembrou de algumas frases de homens que admirava e que lera. Recordou um dos poemas de Brecht: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem.” E uma frase de Machado de Assis saltou à sua memória: “suporta-se com muita paciência a dor do fígado alheio”.

Sentou-se à mesa, enorme, e junto a homens famintos celebrou uma ceia viva. Os homens se entreolhavam com a cumplicidade de que ali estava mais um desgraçado que carregava a angústia em cada passo diário. Ele sorveu seu prato de sopa, levantou-se, mirou todas aquelas vidas e saiu. Quando estava próximo do portão enferrujado, ruminou toda a comida, feito um bovino, e voltou a engolir a refeição misturada ao ácido gástrico, sumindo para longe da sua paisagem.

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