A MORTE DA MORTE – Crônica de Marco Vasques

A MORTE DA MORTE

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [14/05/2012]

Mario Quintana já disse em uma de suas frases certeiras que “a morte não melhora ninguém”. Algumas mortes chegam a piorar o mundo. Este é o caso da morte da atriz, escritora e diretora joinvilense Morgana Raitz. Ela parte e nos deixa inundados da sensação de uma beleza áspera. Ela tatua na brancura dos nossos olhos mais uma cicatriz. E nossos corpos, de ranhura em ranhura, seguem grafitados de silêncio, lágrima e turbilhão.

Mas Morgana Raitz não sai definitivamente da cena, porque a sua digital poética está solta, sem a sua dona, claro, mas está solta neste mundo caduco e cada vez mais necessitado de poesia, ainda que insista em negá-la o tempo todo. Agora cabe a nós agarrar, olhar, fruir e viver o que nos foi oferecida por ela. Por isso afirmamos que Morgana não morreu e nunca morrerá, pois tinha uma mirada peculiar da vida, da morte e do mundo. Deixou esse olhar de fúria sobre o fugaz em seus trabalhos. Um dos espetáculos mais consistentes e inovadores produzido pela nova geração do teatro feito em Santa Catarina teve a assinatura de Morgana Raitz, que nos deixou com apenas 29 anos.

Trata-se da peça “Entre”, que consiste em uma dramaturgia criada a partir de “Fando e Lis”, de Fernando Arrabal, e “Entre quatro paredes”, de Sartre. Pela escolha dos autores e pela radicalidade de sua montagem, é possível afirmar que ela viveu a inquietação total de seus desejos, que deu uma vida voraz à morte para driblar a escuridão. Ela matou a morte. Jogou seu riso de escárnio sobre Tânatos. “Entre” invadiu o espectador e seu não-lugar. Ela trabalhou sempre no espaço onde o homem é apenas fratura exposta. Sem política, ciência, razão. “Entre” desloca o olhar viciado do homem social para o homem descarnado.

Quem teve a oportunidade de tocar o teatro feito por Morgana Raitz sabe muito bem que ela propôs um Teatro de Anunciação. Que ela sempre recorreu aos signos de passagem tanto na escolha dos elementos cênicos quanto na preparação de seus atores. Ela formulou a estética da vivificação da morte. Morgana enterrou a sua própria morte em vida, fazendo escárnio de sua própria condição. Quem teve, também, a iluminação do sorriso escrachado, enorme e sonoro de Morgana tem uma bela fotografia da vida e um caminho para soterrar o esquecimento.

Um homem morre três vezes: quando morre, quando o seu corpo é enterrado e quando alguém pronuncia o seu nome pela última vez. Morgana viverá porque a força da sua linguagem permanece entre nós. Morgana é uma pulsão poética viva. Ela, que também montou Qorpo Santo, é vida, não morte.

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