AS NUVENS – Crônica de Rubens da Cunha

As Nuvens – Crônica de Rubens da Cunha, publicada no Jornal A Notícia em 16/05/2010

Sábado à tarde. Num aeroporto qualquer ele espera. Ele viu as nuvens chegando na cidade. Viu a tarde acinzentar-se. Quase triste. Nada que fosse diferente dos milhares de dias cinzas que ele já viveu. Não que o cinza lhe desagrade completamente, longe disso. O cinza serve de equilíbrio, de contraponto para o azul. O dia bonito e o dia feio, na cabeça das gentes.

Não sabe se concorda muito com essa opinião. Os dias são os dias. Nada demais: uns cinzas, uns azuis, outros malhados, mesclados. Os dias seguem alternando-se sem se preocuparem com os predicados que os homens lhes atribuem. Os homens vivem em função de seus umbigos. Os homens é que são cinzas e feios, mas não admitem, transferem os defeitos para os dias, as noites, o tempo, os bichos. Eles é que são feios, não prestam, são horríveis.

Ele olha as nuvens novamente. Dobra seu pescoço para cima, as nuvens correm, seguem as direções que o instinto das nuvens manda. Nada demais. Às vezes, algumas delas chovem. Desaguam sobre as cidades. Alguns homens acham isso bonito, outros dizem que quando isso acontece é tempo ruim. Novamente os homens e seus predicados. As nuvens apenas passam por cima da cabeça dos homens, carregando frentes frias e os defeitos que a linguagem inócua dos humanos lhes impingem. Ele, minúsculo, olha as nuvens do ponto de vista que sempre olhou: debaixo. Porque então essa superioridade? Esse assanhamento na consciência? É um homem vagido em solidão, num sábado à tarde, longe de casa, perdido num território que não conhece, vendo as nuvens e pensando na gratuidade de tudo, na loucura que é esse viver sem asas. Esse viver que não voa por conta própria, mas que precisa de densas máquinas de voo. Logo vai entrar em uma dessas máquinas, logo ele vai conseguir ver as nuvens de cima.

A máquina de voo barulha pela pista. Ruge e aumenta a velocidade. Começa a voar sem bater as asas. Pela janela, ela vê o mundo diminuindo. A máquina de voo rasga a sutil densidade do voo da nuvem. Atravessa aquele corpo que voa naturalmente e depois plana sobre as nuvens. Ele agora olha as nuvens como se olhasse um pasto branco, o velho pasto da infância cheio de reentrâncias, ondulações. O pasto branco se estende ao infinito, encosta no sol que, aqui em cima, não tem onde se esconder.

Ele acha tudo tão diferente aqui em cima que sempre pensou que a máquina de voo deveria ser transparente, ser, na verdade, uma grande gôndola de vidro. Não essa gaiola de aço com janelas minúsculas. Mas é o que há, a janela minúscula lhe permite ver as nuvens de cima, ver o sol baixando no horizonte, ver que a vastidão e a solidão é bem maior do que pode suportar seu peito de homem com linguagem. O voo segue sua rota. O céu escurece. A noite abocanha os olhos. A máquina de voo desce conforme o combinado. De novo à terra, ele olha as nuvens, agora densa negritude no céu. Elas continuam plenas e viajantes. Ele continua preso a um corpo que vez ou outra atinge alturas.

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