A geometria da insônia

A GEOMETRIA DA INSÔNIA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [28/05/2012]

Faz tempo que abandonou as relíquias familiares. Ele, já nas primeiras mortes, decidiu que não guardaria consigo os relógios e os retratos. Os relógios porque estão sempre apontando para o vazio, com o ritmo insistente e binário: sim, não, sim, não, sim, não. E o mundo não é mais binário, pensa. Claro que têm uns quantos idiotas de plantão que ainda vulgarizam tudo tirando da cartola sempre uma solução definitiva. Eles pensam em dialética igual ao ratinho que conhece apenas queijo e água.

Haja patafísica e soluções imaginárias para suportar esses pensamentos raquíticos disfarçados de elefantes. Quanto aos retratos? Ele nunca revelou o motivo da incineração. O mais perto que chegou de uma confissão – para a mania de queimar todas as fotos de cada morto da família – foi quando disse, em uma noite de extremada embriaguez, que se arrancava o olho de todo morto e se guardava justamente para não ter que se defrontar com eles por tudo que é canto da casa.

 Porque olho, ainda que de um defunto, é como gente viva: sempre provoca dor, desconserto, desejo e irritação. Então, o melhor, disse embalado pelo vinho, é arrancar o olho pela raiz. E assim prosseguia na tradição de eliminar tudo o que é lembrança do decaído mais próximo. Nada de sobras. As roupas todas doadas, móveis à venda, livros espalhados pelos sebos. Alguns alfarrábios. Os que não conseguia vender a ninguém, ele deixava em alguma escola pública.

Nada parecia perturbar sua certeza acerca do procedimento adotado, até que um dia, sob o efeito da cachaça, revelou ser um método algébrico, minuciosamente calculado, para alcançar a geometria e a cor da insônia. Lembrou, num surto de pieguice, que o olho é esférico, constitui a alma de um vivente e que é perfeito como objeto, mas assustador quando vivo, nas pessoas. Disse, ainda, que se pudesse instituiria um serviço nacional muito útil aos seus propósitos: o vazador de olhos.

 O serviço seria bastante simples e econômico. Os operários necessitariam apenas de um agulheiro simples e da distração da população. O negócio era rentável e seguro. Em menos de cinco anos, com uns trezentos operários, tornaria toda a população cega. O escuro, por certo, serviria para ensinar que a cegueira pode ser um método de visão, acabando de vez com as argumentações binárias e lógicas para tudo que é assunto.

Levantou com a língua e com as pernas encaracoladas e sumiu na noite, quase cego de si mesmo, crente de que a solução para Bruzundangas e para o mundo estava em suas mãos, ou melhor, nas mãos dos seus devaneios assimétricos.

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Uma resposta para “A geometria da insônia

  • DJALMA DE OLIVEIRA JUNIOR

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