A liga dos personagens

A LIGA DOS PERSONAGENS

POR MARCO VASQUES

Publicada no jornal Notícias do Dia [04/06/2012]

Vendo que seu plano não alcançaria êxito em Bruzundangas, pois os políticos não apostaram na sua solução edipiana, resolveu tentar, pelo menos, a adesão dos intelectuais de Bundópolis. Como se chamariam os integrantes da alta casta da cidade? Dona Lindomar, Manoel Osório, Policarpo Quaresma e Erdosain asseguram, após farta pesquisa, que poderiam muito bem levar a alcunha de bundosenses. Contudo, a liga dos personagens pede que não nos atenhamos a isso, que é pura questão de semântica.

E por falar em semântica, é sabido que os intelectuais de Bundópolis usam a gramática como método de opressão e não de expressão. Tem uns que jogam pontos, vírgulas, reticências e fazem toda sorte de malabarismo com a linguagem. Coitado do leitor ou do ouvinte se diz que não entendeu. É melhor ficar com aquela cara de paisagem, dar aquele sorriso alaranjado e silenciar. Porque, se o apressado resolve comentar que não alcançou a excelsa reflexão do dito pensador bundosense, é logo taxado de asinino. Burro, na linguagem do povo.

Por aí já se vê que ser intelectual em Bundópolis é muito fácil e, às vezes, nem necessita das abundâncias que nomeiam a cidade. Basta escrever ou dizer coisas que as pessoas não entendam e incrementar o discurso com umas mil teorias, todas incongruentes e insociáveis, nada sociais, por sinal. Pronto, eis mais um arauto das verdades absolutas e inequívocas. Notem leitores, há algo de especial na formação da inteligência bundosense: são sábiosem tudo. Nãoexistem assuntos em que eles não disponham de uma solução definitiva.

Ele explicou que o objetivo do seu projeto era tentar buscar novas cores para o mundo. E para tanto teria que cortar na carne, isto é, furar os olhos de toda a população de Bundópolis para ver se consegue enxergar o mundo por outro ângulo. Então sua proposição era simples: queria descobrir o melhor ângulo para ser ver o nada, como Nelinho. Como os sábios recuaram, por interesse próprio, evidente, pois seus olhos estavam na reta, pensou em recorrer aos discípulos dos gênios do certame.

E como existem os tais. Diz o ditado, casa de ferreiro, espeto de pau. Não é que os semi-intelectuais são mais intelectuais que os intelectuais? É de doer. E eles estão em todos os bares, em todas as universidades, nas repartições públicas e não raro andam em bando. É incrível a capacidade de multiplicação da sapiência. É possível identificá-los pelas ideias que defendem. São tão ortodoxos e uníssonos que se parecem a partidos políticos, onde tudo desintegra, a sigla não. Também não obteve a adesão desejada.

 

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