O teatro de Hilda Hilst – Crônica de Rubens da Cunha

O teatro de Hilda Hilst – Crônica publicada no dia 04/06 no Jornal A Notícia

Para manter a tradição, mais uma crônica sobre Hilda Hilst. Desta vez sobre uma das partes menos conhecidas de sua obra: o teatro. Em 1967, Hilda Hilst começou a escrever dramaturgia. Em dois anos, escreveu oito peças: “A Empresa”, “O Rato no Muro”, “O Visitante”, “Auto da Barca de Camiri”, “As Aves da Noite”, “O Novo Sistema”, “O Verdugo”, “A Morte do Patriarca”. Algumas delas permanecem inéditas no palco, as outras nunca tiveram montagens relevantes.

Depois dessa experiência, Hilda Hilst não volta mais a escrever teatro, por isso, alguns críticos dizem que essas peças serviram como “ensaio” para a prosa e a poesia que viria depois. Acredito ser preciso alargar tal ponto de vista, para perceber que o teatro de Hilda não possui apenas valor de ensaio, ou de teste para o que viria depois, pois a sua obra é um contínuo crescente pela transgressão, pela ruptura, pelo choque na linguagem. Essa rápida produção dramatúrgica faz parte de um processo bastante comum em Hilda Hilst: a busca pelo novo.

Peter Brook, um dos maiores nomes do teatro contemporâneo, pensa que algo relevante só ocorre quando se cria um espaço vazio, é nesse espaço vazio que o novo pode acontecer. Hilda foi uma escritora que a cada livro abria espaços vazios, novas trincheiras. O teatro faz parte desse processo de busca contínua pelo novo, assim como foi a sua famigerada trilogia obscena, bem como suas crônicas, que deram a fama de maldita, pornográfica, velha louca, àquela que é uma das escritoras mais livres da literatura brasileira. Os predicados serviram apenas para vender revistas ou uma imagem sensacionalista de Hilda. Sua escrita pairava acima, ou abaixo, das leis dos periódicos, das leis do mercado.

Entre 1967 e 1969, o Brasil estava uma situação política perigosa, com as sombras ditatoriais presentes, mas ao mesmo tempo com uma movimentação artística ousada, criativa, movimentação que respondia aos anseios de toda uma geração, que vivia um dos momentos mais criativos do século 20. Hilda Hilst resolveu se comunicar com esse tempo de outra maneira, estabelecer alguma forma de abertura, de cisão, de espaço em que pudesse falar de forma mais urgente. Por isso a escolha do teatro, arte de aproximação, de contato direto com o público. E, sobretudo, de transformação, pensando aqui tanto na catarse aristotélica, na crueldade proposta por Artaud, quanto no distanciamento brechtiano, ou no universo absurdo de Beckett e Ionesco, ou em outras diversas experiências que tiveram o teatro como matéria-prima. Por isso, reitero: mais que ensaio, o teatro hilstiano foi um momento em que o “espaço vazio” foi preenchido com a urgência de algo que precisava ser dito. Cabe aos encenadores finalmente colocar essas peças no seu devido lugar: sobre o palco. Estamos em tempos cada vez mais necessitados da voz urgente e poética de Hilda Hilst.

Rubens da Cunha

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