Avenida da saudade

AVENIDA DA SAUDADE

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [11/06/2012]

Desistiu do confronto. Ele não mais tentaria aplicar suas soluções tortuosas em Bundópolis. Todos foram unânimes na negativa. Sequer quiseram ouvir suas argumentações, partiram logo para a sempre renitente visão ordinária e binária da existência. Artistas, políticos, estudiosos, intelectuais e toda sorte de agremiação criada para disputar poder com o poder, somente para isso, aboliram o diálogo com ele por conta das suas ideias obscurecidas, segundo argumentação da maioria.

 Lamentando o insucesso, ele resolve abandonar a psicologia da cidade, mas jamais a arquitetura dos homens. E foi na Avenida da Saudade que encontrou uma senhora, digamos, sem saudade alguma do passado. Dona Nair, como é conhecida, fez da fala um arranjo para iludir os passantes. Notem que a Avenida da Saudade começa na penitenciária e termina no cemitério municipal de Bundópolis. Muito provavelmente isso é obra de um intelectual, porque um político talvez não tivesse sensibilidade e razão para fazer uso da metonímia, quanto mais das expansões metafóricas existentes na ausência/presença de um presídio e de um depósito de ossos.

Mas como íamos dizendo, Dona Nair aboliu a razão e a lógica de seu mundo. Quando encontrava um transeunte ia logo perguntando coisas sem a menor cerimônia e cadência racional. No entanto, sem perceber, ela tocava nos vãos, nas frestas, nas fraturas do caminhante desavisado. Dia desses, Dona Lindomar presenciou uma cena advinda destes encontros com Dona Nair. Fato curioso e bastante comentado em Bundópolis. Dizem que a velhinha parou um desses homens importantes do bairro em plena Avenida da Saudade e disparou uma série de perguntas. Dona Lindomar, claro, ampliou o ouvido e diminuiu o ritmo dos passos.

Dona Nair não esperava respostas. Ela não perguntava com o objetivo de alcançar alguma ciência ou algum método para entender a vida alheia, fazia pelo simples prazer de indagar, de conversar, de prender o outro à sua trama solitária. Pensava, dizem, em trazer todos os caminhantes que cruzassem por ela para seu mundo de incertezas. Tens filhos? Quantos cachorros moram na tua casa? Casasse com mulher ou com homem? Ainda existe classificação de gênero? Um morto no cemitério é igual a um vivo na cadeia? Por que Avenida da Saudade? Quem é aquele de camisa verde? Casou quando? Onde está o teu marido? Onde é tua casa? Já mordesse a língua dormindo? O que faz aquele enforcado que não sorri? Tem pão doce? Pão doce é doce mesmo? Quanto vale uma vida esquartejada? Ama mesmo ou só faz de conta? Por que o sorriso? E o meu vestido florido? Tem saudade no bolso?

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