Crônica de Marco Vasques

UMA CONVERSA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [25/06/2012]

Entrou no bar do Minga. Tudo rodava. O copos eram mais conhecidos que as pessoas. Sentou e pediu um maracujá e uma cerveja. Na televisão, Willian Bonner, canastrão como sempre, diz que a Argentina quer ficar com as Malvinas. Ele olha para a plateia. Todos parecem esperar que diga algo. Bebeu o maracujá. Pediu outro. Olhou o cão aos seus pés e disse: não liga não, Velho Barreiro, vamos ficar aqui mesmo. No ponto de ônibus,  a chuva faz com que as pessoas se aproximem. O inverno aproxima os homens de seus silêncios, pensa.

O ruído da televisão chama atenção novamente. Se noticiam uns acidentes de carros, uns assassinatos, um crime passional, o vai e vem da economia, a corrupção, depoimentos de políticos, abuso sexual contra crianças, hospitais públicos em estado de abandono absoluto, a educação pública sem investimento, professores em greve e uma reunião importante com um monte de gente no Rio de Janeiro. Intervalo. Olha pra rua novamente. A noite terá que ser aquecida com muita cachaça porque os papelões que guardou estão umedecidos.

Pede mais uma cerveja. Aos poucos vai perdendo o noção do tempo. À medida que vai bebendo, começa a pensar em sua própria vida. Não quer se lamentar porque sabe que todo homem tem sua tragédia pessoal. E aquele que não teve ainda, pode aguardar que seu dia irá chegar. Ninguém passa ileso pela vida. No entanto, quanto mais bebe, mais volta-se ao seu mundo. O cão parece reconhecer os seus pensamentos, pois coloca a cabeça sobre o pé direito do homem, afirmando sua presença e sua solidariedade.

Volta-se para o dono do bar e aponta para o copo de maracujá vazio. O sinal foi entendido. Com andar imperfeito, o homem traz mais uma dose. Bebe com força, sem que o dono do bar saia do seu lado. Mais uma vez o copo é enchido. Nesse exato momento, na televisão, já se está na quarta novela em que o sexo é tratado abertamente, mas da maneira mais reprovável possível, colocando a mulher na qualidade de objeto e seu corpo como parque de diversões para os olhares masculinos.

Pensou que também já olhou para as mulheres como objeto e, para ser bem sincero, ainda olha para algumas apenas com o desejo da devora. É o animal falando mais alto. A televisão continua ligada e agora o Arnaldo Jabor, moralista refinado, espinafra alguém que ele desconhece. As notícias todas se repetem, as mesmas de todos os dias. Estamos condenados à repetição e não nos abandonamos por pura vaidade e invenção. O bar finalmente é fechado. Ele sai com Velho Barreiro para encarar mais uma noite e todos os seus abandonos.

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