Crônica da semana: “A agonia nos dedos” – Por Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 27/06/2012

A agonia nos dedos

Escrever mais uma vez. De novo aquela agonia nos dedos quando tocam cada tecla. Ele aprendeu numa década de 80 remota a remota arte de datilografar. Era um exército de máquinas de escrever, enfileiradas, todas com uma folha sobre as teclas. A turma de contabilidade (sim, ele já fechou balanços, já soube o que era amortização, já peleou com créditos e débitos) saía da sala e seguia para a fatídica aula de datilografia. O que ele sempre se perguntou é como as pessoas conseguiam fazer aquilo, datilografar sem olhar, sem ver as letras? Pilhas e pilhas de folhas com tudo alinhado, perfeito, coisa que ele nunca conseguiu fazer.

Lembra-se que havia o “errorex”, ou algo assim, era o máximo da tecnologia. Errava-se uma letra, bastava datilografar de novo, agora sobre uma pedacinho de papel com tinta branca, a letra errada apagava e sobre ela se datilografava a certa. As marcas do erro ficavam visíveis, mas era um paliativo melhor do que digitar um X sobre a letra errada. Outra coisa: quem disponibilizou as letras nessa sequência? Lembra que decorou apenas a primeira e mais comum sequência: asdfgh. Fora isso, sempre dava um jeito de levantar a folha, de olhar as teclas, e mesmo assim errava tudo.

A datilografia nunca foi o seu forte, quase reprovou em tão importante matéria. Lembra-se das máquinas, mas não consegue se lembrar do nome da professora. Por onde andarão as máquinas daquela sala, e aquela professora inquisidora que ficava no campo coibindo as breves levantadas da folha sobre as letras? Soubesse ela que até hoje ainda olha algumas vezes para o teclado, ainda caça o ponto, a vírgula, ainda troca o y pelo u e digita o s antes do a. Que outra matéria passou a ensinar a professora de datilografia depois que isso caiu em desuso? Depois que o teclado dos computadores se presentificaram na vida das crianças, depois que se tornar um digitador é algo fácil, que exige mais treino do que perícia, mais uso do que estudo? Toda vez que erra a digitação, toda vez que muda de ideia, e usa a barra de backspace, o errorex de agora, lembra-se das inúmeras folhas que jogou fora porque errou a datilografia no último parágrafo, lembra das oito vias da guia de importação que precisava ser preenchida à máquina sem erros.

Sim, ele já fez importação por vias legais, com todos os documentos encaminhados para um departamento no Banco do Brasil. Como se chamava? Siscomex, sicomex, errorex? Um lugar qualquer onde predominavam as máquinas de escrever e os computadores de tela verde. Trabalhou com eles também, os computadores de tela verde, preenchiam uma sala, ele tinha que fazer o backup de toda a movimentação do dia. Ficou tão feliz quando se livrou das máquinas de escrever, dos papeis carbono, daquele barulho infernal e passou a ouvir apenas a música do teclado, e claro, a uma ainda irritante música da impressora à fita.

Desse tempo, apenas permaneceu a breve agonia na ponta dos dedos sempre que tem que escrever.

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