Crônica da Semana: SOLIDÃO:TARDE por Rubens da Cunha

SOLIDÃO:TARDE

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 04/07/2012

Solidão, tarde. Duas palavras que se amigam sempre. São tantas as possibilidades de composição: a solidão na tarde, a tarde com solidão, a tarde como solidão, a solidão pela tarde. Podemos também transformar uma predicado da outra: a solidão vespertina, a tarde solitária. Elas também se acasalam pelos verbos de ligação: a solidão é a tarde, a tarde parece a solidão, a solidão está tarde que está solidão. É como se fossem dois espelhos colocados um na frente do outro: solidão e tarde se espelham até o infinito.

Dizem os doutos em solidão que à noite ela é pior, ou que é na noite que a solidão vive. A noite casa melhor com a solidão. Pode ser, mas aí é outra relação, é um matrimônio, uma relação oficial, clichê, esperada por todo mundo. Com a tarde, a solidão é mais escusa, mais cuidadosa pois está à luz do dia. Tarde e solidão são duas amantes perdidas em motéis de beira de estrada. São duas fêmeas paradoxais, pois solares e tristes. Ninguém acredita que elas possam combinar, que elas possam trocar de lugar, pertencerem uma a outra na invisibilidade do catador de papel, na observação silenciosa dos velhos na fila da lotérica, no andar corrido dos office boys para chegar antes das 16 horas nos bancos, nos varais cheios de lençóis recém lavados pelas domésticas, no apito multador do guarda de trânsito, nas engrenagens das indústrias.

Tarde e solidão compõem diariamente a paisagem, desarticulam as verdades, instauram pequenas transgressões, seja dentro dos elevadores, à margem dos rios poluídos, no asfalto picotado de buracos, nos coletivos que, estranhamente, à tarde ficam vazios. Tudo reverbera o amor escondido que sempre houve entre a tarde e a solidão. Poucos percebem, porque acreditam na solidão e na noite, na solidão escura dos bêbados, das prostitutas, aves noturnas que tatuaram solidões no peito. Mas uma tatuagem é só uma mancha sobre a pele, uma verdade estabelecida na superfície. A solidão e a tarde estão à margem de tais coisas, são translúcidas como o latido dos cães, os apartamentos vazios, os museus fechados, as estátuas dos imigrantes no centro da praça, os trilhos abandonados na zona leste da cidade.

A tarde e a solidão festejam tantos os dias ensolarados, quando podem se refestelar em azul e calor, quanto aqueles dias úmidos, garoados, em que elas se acasalam dentro dos bolinhos de chuva e nos cafés. Tarde e solidão se perdem por entre as figueiras, os jacatirões, para se encontrar logo depois naquela avenida sem árvores, ou na outra avenida prenhe de lojas de móveis caros. Solidão e tarde acompanham vendedores, corretores, atendentes, cobradores, motoristas. Gente uniformizada e atenta. Não há nada que separe a solidão e a tarde, nem mesmo a noite, muito menos a manhã. Se elas não se encontram nesses horários é porque descansam um pouco, dormem até sonharem com o próximo encontro, com aquilo que novamente serão entre meio-dia e dezoito horas.

Rubens da Cunha

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