Sangue de leite de magnésia

SANGUE DE LEITE DE MAGNÉSIA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [09/07/2012]

Não se sabe direito qual o motivo, mas o fato é que parte das pessoas, com o passar do tempo, vão perdendo o ímpeto, a força de brigar pelas coisas e o senso de justiça vai ficando mais maleável que elástico de samba-canção. A democracia passa a ser realmente democrática quando serve aos interesses desses indivíduos. E têm ainda uns rebeldes, que mantêm alguma energia, mas falam de dialética de um jeito tão autoritário que conseguem o riso da galera. Nem os verdadeiros palhaços e bufões os superam.

Amanda Corrêa tem razão. Ela também tem nojo profundo por essa gente que troca os glóbulos brancos e vermelhos por leite de magnésia. Fundou-se um tipo humano que tem sangue insosso, pálido. Essa gente tem a empáfia na garganta. Alguns sabem articular uma meia dúzia de raciocínios binários e falam mais bobagens que cachorro de magnata. Geralmente acusam seus pares, tendo o rabo mais preso que gato de porcelana.

Em Justinópolis, vejam a ironia, Ribeirão da Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, uma mulher procurava atendimento para sua filha de sete anos. Não encontrou e resolveu não aceitar a morosidade da saúde pública. Recuperou o arroubo e a força da juventude. O resultado foi “um computador, a máquina de emissão de senhas e uma maçaneta quebradas. Além de ter feito ameaças”. Ameaças? Uma mãe, desesperada para ver a filha receber atendimento, pode ser considerada um perigo? Os noticiários nacionais só não a chamam de terrorista porque ainda não perderam o total senso do ridículo, mas estão muito próximos.

Há relatos de tumulto e de opressão aos funcionários. Uma pobre mulher colocando medo em toda uma Unidade de Pronto-Atendimento? Brecht tem razão ao dizer que “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”. Temos apreço por essa senhora que desconhecemos. Nós, em Bundópolis, muitas vezes, somos obrigados a fazer o mesmo.

Corre solta a notícia de que Justinópolis quer incriminá-la por perturbação e por ter quebrado o patrimônio público. Que a saúde pública no Brasil é inferno, todos sabemos. Que a máfia dos planos de saúde privados está estabelecida, ninguém nega. Que a corrupção tomou conta do país, não há alguém que não saiba. Que a banditismo oficializado corre frouxo, até papai-noite, que não existe, comenta. Mas tanto para Bundópolis quanto para Justinópolis parece ser mais fácil aterrorizar, ainda mais quem ainda tem coragem de berrar e não aceitar a palidez do sangue de leite de magnésia sempre presente na cara de demagogos e bandidos profissionais.

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