A COLEÇÃO – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 11/07/2012

A COLEÇÃO

Eu era um colecionador de CDs. Comprei durante alguns anos, depois parei. Enfim, não tenho a necessária alma contínua de colecionador. Funciono por um tempo, mas depois esqueço, canso, mudo de ideia. Acho que com a maioria é assim, tanto que os colecionadores são sujeitos quase excêntricos, são chamados para reportagens “curiosas”, para preencherem aqueles espaços vagos dos jornais e TVs com cultura.

Olho para a minha coleção de CDs, que era mantida conforme a ordem alfabética dos nomes dos artistas e bandas. Depois da minha última mudança essa ordem se perdeu. Tenho ouvido bem menos música do que antes e talvez não consiga voltar, tão cedo, a ter aquele volume de escuta e atenção que eu lhe dedicava. Resolvo pegar ao acaso um CD, tentar rememorar algumas coisas. O escolhido chama-se “Vênus” e é de Verônica Sabino, uma cantora que ficou sempre à margem do sucesso midiático, mas que tem uma voz delicada e um trabalho bastante coerente. Este é um CD de 1995, e não sei mais onde o comprei, só sei que foi o primeiro dela que eu adquiri e que há outro perdido por aí. Há nesse CD uma bela canção de Adriana Calcanhoto chamada “Tardes”: “Agora eu durmo tarde e acordo tarde e as tardes são assim, pra mim, manhãs”. Apesar de nunca ter vivido essa experiência de tornar as tardes manhãs, reouvir essa canção me trouxe à tona a poética bastante específica da Calcanhoto. Tivessem meus CDs em ordem, eu iria ouvi-la de novo. No entanto, ela deve estar perdida por aí, não mais perto dos outros artistas que começam com “A” mas lá entre o N e o M, ou entre o R e o S.

Outra canção que está no CD da Verônica chama-se “Vale a pena” de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro, dois dos principais compositores brasileiros. É uma canção bastante melódica, com uma letra que tece um elogio ao recomeço: “Vale a pena abrir as cortinas, pra minh’alma debruçar nas janelas, e outra vez olhar a luz do sol e sentir o cheiro bom do mar, respirar bem fundo o ar das manhãs. Vale a pena encher a casa de flor e deixar a mesa posta pra dois, retornar da escuridão, isso só já valerá, o amor virá depois”.

Em algum lugar nessa pilha de CDs há uma gravação de Nana Caymmi para essa música e, diante de Nana, Verônica some. Aliás, foi Nana quem me proporcionou um momento inesquecível em shows musicais: logo no começo do show ela avisou que não fazia o bis, cantou a última canção, agradeceu e foi embora. Agora, toda vez que vejo aquele momento constrangedor do bis, lembro da superioridade de Nana, e lembro também de outro momento que confirma o constrangimento do bis: quando Fernanda Porto se apresentou em Joinville, a plateia meio que esqueceu de pedir bis, acontecendo aqueles terríveis segundos de vergonha alheia. Tudo seria evitado se a tradição chata do bis caísse.

Devolvo Verônica Sabino para a pilha de CDs, feliz por ter revivido algumas canções, algumas lembranças perdidas. Acho que está na hora de por essa coleção em ordem novamente.

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