Desorientação de bordo

DESORIENTAÇÃO DE BORDO

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [16/07/2012]

Acordou com língua e garganta secas. Passou a mão esquerda por toda a cama à procura da garrafa de água. Nada. Pela intensidade da luz, que insiste em tornar o mundo necessário, percebe que será mais um dia de sol. A dor de cabeça impera. A nudez indica que dormiu com mais um desconhecido. Havia prometido a si mesma não mais fazer sexo bêbada. A embriaguez faz com que se esqueça se tivera ou não prazer, o que deixa qualquer homemem vantagem. Elagostava de encurralar os homens. Os soberbos, sobretudo.

O dia exigia alguma atitude. Que horas seriam? O que fazer? Quem teria passado por sua cama? Daria tempo de tomar café? E o trabalho? E se sua mãe aparecesse sem avisar? O que teria acontecido após sua saída da Travessa Ratclif? Como chegou em casa? As perguntas se acumulavam e a inércia se perpetuava. Tantas perguntas e nenhum desejo de ação. Todo o silêncio do mundo; a escuridão e mais um dia na cama era tudo que precisava. O corpo insiste em pedir água. Procura a maldita garrafa. Tinha certeza que estaria em algum lugar do quarto. Após algum esforço, achou-a embaixo da cama. Bebeu tudo, num desespero incomum.

Lá fora, umas vozes. Que tanto essas pessoas falam? Por instantes invejou o mundo dos mortos. Sentiu-se sentada no cemitério do Itacorubi, em plena madrugada, cercada de silêncio, flores e escuro. Por que não se enterram os mortos pela noite? Como seria ler um livro no breu? E se voltasse a colecionar olhos? Tinha que parar de pensar essas coisas, pois ainda enlouqueceria tentando fugir dos ruídos, dos compromissos, do emprego, da empáfia do mundo e da multidão sempre vigilante. O corpo, nu, não encontra energia suficiente que a leve para outro cômodo da casa.

É urgente levantar, tomar banho. Sim. Que roupa colocar? Em que restaurante comer? Não é possível entender o mundo assim tão ordenado, reto, estabelecido? Beber é uma tentativa de provocar a desorientação de bordo. Lembra de um sonho. Uma sucessão de imagens perdidas. Uma porta gigantesca por onde passam casas atrás de casas. Uma tribo indígena dentro de uma garrafa de uísque. O casamento de duas moscas, na Catedral Metropolitana, é noticiado na imprensa nacional. Um homem com cabeça de umbigo persegue formigas aleijadas. Baratas encenam Shakespeareem Londres. Vermespedófilos invadem as igrejas e devoram padres e bispos. Tudo se torna escuro, branco. Uma confusão. Volta à fresta da janela. A noite chega. Nenhum movimento executado. O telefone da sala toca. Resiste. Liga a televisão. Lembra que precisa voltar a beber para beijar o rosto de mais um desconhecido.

 

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