JULIA VARLEY E MARIA CANEPA

JULIA VARLEY E MARIA CANEPA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [23/07/2012]

Há algum tempo dissemos a uma jovem atriz que se continuasse sua pesquisa e vivesse parte da vida para o palco, talvez assim, se tornaria uma grande atriz. Óbvio que a reação foi imediata: cara fechada, irritação e descaso pelo que falamos. Até hoje, a suprema atriz, que montou apenas um espetáculo, não nos dirige a palavra. Em Pedras d’água – bloco de notas de uma atriz do Odin Teatret, escrito pela atriz Julia Varley, após mais de trinta anos de pesquisa com Eugenio Barba, ela diz: “Precisei de quatro anos para compreender com o corpo aquilo que agora posso explicar em poucos minutos com palavras”.

E segue: “Naqueles primeiros anos, Eugenio me tomava como exemplo em situações pedagógicas, para provar que não bastava o esforço para produzir energia cênica crível. Meu exemplo servia para explicar quantos anos de trabalho são necessários antes de dar sinais de vida em cena. Entendia que a única possibilidade que tinha era continuar meu caminho e deixar que os resultados aparecessem”. O livro publicado no Brasil em 2010, por iniciativa do Teatro Caleidoscópio, de Brasília, que é dirigido por André Amaro, é uma bíblia para atores e diretores.

Desde a leitura do livro ansiávamos pelo encontro com Julia Varley. Na semana passada, a atriz inglesa radicada na Dinamarca pode mostrar no palco do Teatro Álvaro de Carvalho sua “energia cênica crível”, com o espetáculo AVE-MARIA, que fez parte da programação do Vértice Brasil. Em meio a uma semana de espetáculos problemáticos, AVE-MARIA veio a confirmar suas escrituras. Só o trabalho constante salva o ator, o diretor e todo artista dos chavões e clichês habituais.

Varley, neste trabalho, homenageia a atriz chilena Maria Canepa (1921-2006). A partir de uma partitura poética que privilegia o jogo constante entre vida e morte, fugacidade e perenidade, infância e velhice, Júlia faz com que o público ultrapasse qualquer fronteira para se encontrar com a linguagem universal do teatro. Ela mesma, em seu livro, quem alerta: “É o espectador que deve voar, liberando-se da história, dos personagens, da montagem, da dramaturgia e do espetáculo mesmo”. E mais: “É a organicidade que dá fascínio e persuasão às ações. O espectador conhece mesmo se não reconhece aquilo que a atriz faz. A atenção é mantida pelo modo como se conta, mais do que pelo que se conta. O teatro é uma relação orgânica entre dois seres vivos, o espectador e a atriz”. AVE-MARIA é orgânico, vida cênica, faz voar, liberta, fascina e persuade o corpo e os sentidos. Maria Capena e Julia Varley, catedrais de mil ave-marias. 

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