Crônica da Semana – Das dores, das esperanças – Por Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 25/07/2012

Das dores, das esperanças

Uma dor no braço. Reumatismo? Má postura corporal durante o sono? Não sabe, sabe apenas que a dor permanece no braço esquerdo. Avisando que outras breves dores continuam instaladas. Não dores físicas, mas as velhas companheiras de sempre: a aflição no peito, a falta de ar, o estômago revolto.

Tenta, por certo, apagar, atenuar as agruras por onde anda metido, seja com pequenas compras nas esquinas, com breves leituras nos ônibus, com fugas pelas futilidades internéticas, seja enganando-se num amor bissexto, em esparsas visitas familiares, em olhares críticos sobre os palcos. Nada atenua o afogo sobre a laringe, os olhos inundados de poeira e tristeza, o estômago carcomido de angústia.

É um homem solitário, e sabe disso, mais até do que pode aguentar, mais do que pode levar sobre as costas. No jogo contínuo das aparências, a vida segue, como as semanas seguem, alternando os dias e as esperanças. Mas nada que faça cócegas no cerne, nada que perpasse a casca. A vida segue assim como segue a dor no braço e o vazio dentro. Os planos são muitos, a execução é difícil, mas ele não desiste, não solta de vez o leme como gostaria, mantém-se ainda com alguma bússola, com algum norte, alguma inteligência para além da lamentação. Talvez isso o mantenha em pé, com a cabeça próxima de alguma dignidade.

O problema, como sempre, é o sonido dentro, aquele bonequinho com chifres e rabo dizendo para parar, desistir, largar, esquecer, enfurnar-se cama adentro até que nada mais reste. Por outro lado, (há sempre o outro lado) a vida segue aberta às experiências. Logo chegará em marte uma sonda, logo começarão as olimpíadas, logo crianças correrão suas inocências perguntativas na sua frente, logo o sol chegará mais perto do sul do Brasil, logo outras viagens, convites, jantares, pessoas acontecerão em plenitude e, talvez, a dor no braço, o peso sobre os pulmões desapareça dentro do esquecimento.

Ele sempre foi tão perito em esquecer, em desaparecer todas as humilhações, a falta de coordenação motora, a falta de tato, o corpo frágil incapaz do handball, do volleyball, do futebol, ou de qualquer coisa que tivesse o corpo como matéria-prima. Esqueceu disso tudo, melhor, escondeu isso tudo para dentro de alguma artéria, atrás de alguma costela, entre uma vértebra qualquer e por lá ficou.

Hoje, apesar da dor no braço, ser portador de todo esse esquecimento o ajudou a permanecer vivo de alguma maneira. Toda essa torrente de palavras, pensamentos, delírios inconclusos, ficam sobrevoando a sua cabeça de homem que se atordoa muito fácil. Atordoa-se com os acordos políticos escusos, com a mediocridade operante das relações, com os rios cada vez mais mortos. Será que sua dor no braço e o peso dentro não viriam disso? Do mundo sendo cada vez mais assassinado, cada vez mais descascado pela ganância? Ele é um homem ainda prenhe de alguma esperança, ainda preenchido por algum futuro, ainda fascinado pela natureza, a única coisa que vale a luta.

 

Rubens da Cunha

 

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