AMOR E POSSESSÃO – crônica da semana

AMOR E POSSESSÃO

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [30/07/2012]

Uma das canções cantadas por Ana Carolina diz: “o amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar”. E as coisas acabam. Tudo acaba, por que o amor deveria, somente ele, ser eterno, ou melhor, morrer com a morte? É o sentimento de posse que priva o amor de seu fim. A possessão é fascista. Hitler só atingiu o seu nível de loucura porque supunha que era o emissário do povo alemão e a ele possuía. Uma parte por domínio e força, a outra por consentimento/necessidade. Não há nada mais obsessivo e fascista que querer guiar o outro pelas nossas cores, pelas nossas ideias.

Um equilibrista diria que é mais fácil se equilibrar nas chamas de uma fogueira da Idade Média que estabelecer o limite do consentimento, do abandono consentido ou mesmo do roubo de uma aprovação. O escritor britânico Eric Arthur Blair, mais conhecido por George Orwell, em A revolução dos bichos, já nos coloca diante das dificuldades de estabelecer estas fronteiras, isto é, têm muitos fascistas com discurso antifascista.

O homem não tem propensão cartesiana, embora se vanglorie por dominar a razão. Somos poços de contradições e desejos indefinidos. Uns quilômetros de incertezas é o que somos. Em qual lado estamos? Temos que estar de algum lado? Estamos dentro de nós ou estamos fora, no outro? O que do outro queremos? Queremos o outro ou nos queremos no outro? Queremos que outro seja um outro que imaginamos? Ou ainda desejamos ser o outro e, justamente por isso, o desejamos? O que nos leva a amar esta e não aquela pessoa?

Um homem é uma imensidão, um labirinto. O poeta português Sá-Carneiro já sabia que existe um Teseu dentro de cada homem, pois em um de seus poemas nos diz: “Perdi-me dentro de mim/Porque eu era labirinto”. E é nesse labirinto que nos guiamos pela terra, mas estamos sem a espada e o Fio de Ariadne. Não temos salvação, não temos direção. Temos que aprender a viver nos entres. Os homens são abismos de deuses e demônios, amores e ódios.

Alguns vivem dormentes; outros em estado de fogo, fagulha, vertigem. Estamos mesmo condenados. Uma espécie de Sísifo carregando as palavras para a mesma direção: o esquecimento no reino das coisas e das palavras. A vida, esta flecha sem direção no espaço, nos submete a possessões incalculáveis. Vivemos possuídos e perseguidos pelo tão propalado sucesso, pelo amor ideal e perfeito, pela constância, pelos olhares acusativos determinando nossos desejos, pelos preconceitos, pela intolerância, pelas ditaduras disfarçadas, pelo sonho do consumo e obcecados em esquecermos o amor dentro do amor enquanto há amor.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: