A memória ancestral – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, no dia 08/08/2012

A MEMÓRIA ANCESTRAL

Busco a memória. Não a memória física constante nas células, mas a memória ancestral, a que carrego atrás do corpo. É saudade o que sinto: um dedilhar de piano por sobre o silêncio, um fechar desses meus olhos sempre tristes, sempre impregnados de cotidiano, um calar que me leva além do visível, que recorre ao passado para socorrer-me.

Por isso venho aqui, nesta casa oficial da memória, neste Museu Arqueológico de Sambaqui onde meus contemporâneos tentam destrinchar a vida dos primeiros, dos que amontoaram durante anos num mesmo lugar restos de alimentos, de animais, restos dos seus mortos, formando o que hoje são morros estranhos dentro da cidade, mas que em seu tempo serviram como morada, quintal, mirante. Os contemporâneos chamam de sítios arqueológicos. Descobrem nos restos como viveram estes índios, seus caminhares nômades, suas armas amoladas na pedra, descobrem o que comeram, o que vestiram, descobrem até a organização de sua sociedade.

Jamais descobrirão o que se lhes passava na alma, as ganâncias, os enlevos feitos de madrugadas e juncos, as alegrias profundas. Jamais descobrirão que fui um deles, que estive nesta terra e também contribuí com conchas para o sambaqui, que amei muito naquele tempo, não o amor romântico dos meus dias atuais, onde tudo são posses. Amei muito dentro da liberdade extrema que a selva oferece.

Hoje, mesmo com toda a tecnologia que alcançamos, nossos restos atuais estão nos lixões, estão entupindo os rios, estão engravidando as nuvens de veneno. Não construímos mais sambaquis com o que restou dos alimentos, das fogueiras ingênuas ou dos nossos mortos. Jogamos os restos nas periferias, alguns dos humanos atuais estão lá comendo o que outros rejeitam.

As ferramentas, e as pedras em que amolei as ferramentas, estão aqui em redomas de vidro para a visitação pública. Parecem aquários mortos. Estes objetos ganharam o nome pomposo de objetos líticos. A natureza manteve as cicatrizes que fiz nas pedras, mas e os ferimentos que as pedras fizeram em mim? Hoje tenho meus papéis assinados, minhas aplicações bancárias, meu dinheiro ganho com a ambição de homem moderno. Se naqueles dias eram as mãos que se feriam na construção das armas, hoje tenho a alma ferida na arquitetura de uma vida repleta de encontros sociais, de reconhecimentos profissionais e familiares.

Por mais que meu mundo atual me forneça possibilidades de ser feliz, sou frágil demais para sustentar qualquer sonho. É só aqui dentro do Museu Arqueológico de Sambaqui que me reconheço mais humano, que me permito um pouco de sossego, de nudez. É dentro deste museu que desmascaro o homem que sou, trazendo à memória aquele homem que fui e que nunca esqueci. É nesse espaço que a saudade se confunde com a imaginação e ambas sedimentam a minha vida com alguma esperança de que não seja apenas uma memória ancestral resgatada quando venho aqui, mas que ela, repleta de liberdade, ainda determine os meus caminhos novamente.

Rubens da Cunha

 

 

 

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