crônica da semana – OS OLHOS DE GENET

OS OLHOS DE GENET

POR  MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [13/08/2012]

Ao entrar em casa percebeu que a tolha da mesa foi substituída. Normal. Talvez Marina tenha passado para pegar um livro ou colocar umas compras na geladeira. Ela odeia as tolhas coloridas que ele costuma receber de sua mãe todo ano. Também não gosta de nada colorido, mas, muito provavelmente, dona Judite faz isso para irritar, já que não está nem aí para o seu filho. Sim. Existem mães que não amam seus filhos. É humano. Não há nada de errado nisso. Mas daí a sacrificá-lo a vida toda, fazendo de tudo para contrariar seus desejos, parece um tanto exagerado.

Aproximou-se da mesa e viu que não se tratava de uma tolha, mas da foto de Jean Genet. Uma foto de juventude que carrega toda a tristeza do orfanato onde passou a infância. Sim, Genet foi abandonado por sua mãe e nunca conheceu seu pai. Mas nada de fazer julgamentos binários. Ela também viveu um inferno santificado. Genet sempre buscou a santidade na imundície humana. Mergulhou tão profundamente na vida, que cada ato era soco em si mesmo. Ladrão profissional, sim. Para ser um bom ladrão é necessário conhecer a sua arte. Prostituto de mão cheia. Ele mesmo se orgulhava de ganhar alguns trocados fazendo aquilo que o trouxe ao mundo, a prostituição. Um desejo santo de pisotear a própria vida.

Jean Genet inaugurou uma literatura que foi tipificada por Derrida e Foucault, amigos pessoais dele, de “literatura do ódio”. Escreveu o primeiro livro, Notre-Dame Des Fleurs, na prisão. Entre seus admiradores estavam Jean Cocteau, Sartre e André Gide, que assinaram uma petição para que ele não fosse condenado à prisão perpétua. A peça teatral Le Balcon é ambientada num prostíbulo frequentado por pessoas, digamos, bem sucedidas, ou seja, um bispo, um juiz, um general e um chefe de polícia. Acidez e ódio. Desespero e paixão. Santidade.

Genet experimentou a miséria, a humilhação e o sofrimento. Tentou se matar quando soube do suicídio do único homem que amou. Devolveu ao mundo tudo que recebeu. Sua redenção está justamente em agredir o mundo para evitar a defesa. Sua arma era o ataque. Genet não é esse tipo de rebelde que temos hoje, que calcula sua rebeldia. Suas ações vinham de suas necessidades; não poderia deixar de fazer o que fez.

Lembrou que Fassbinder filmou Genet.  Teria que convidar Marina para rever a película. Não consegue se movimentar. A mesa ali, com a tolha do tamanho da Santa Ceia.  Um demônio santo afogado na mais pútrida castidade, mostrando o quanto a sua vida é ignóbil, abjeta, maquiada, mesquinha, torpe, enfim, uma vida adjetiva. Tentou comer os olhos de Genet.

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