Crônica da Semana: A Janela e o Passado. Por Rubens da Cunha

Crônica da semana publicada no Jornal A Notícia, em 22/08/2012

A janela e o passado

Sentada no ônibus, teve uma crise com o tempo. Esperou por demais para viver. Por mais que tente se convencer de que a vida é assim mesmo, de que o que está feito está feito, ainda sobram as agudezas do arrependimento. O ônibus que a leva para casa, passa pela frente do lugar onde foi seu primeiro emprego. Não é um caminho diferente, passa por ali praticamente todos os dias, mas hoje não sabe o que fazer com o fato de ver o passado pela janela do ônibus.

Não vê apenas o passado, mas a si mesma, triste e transparente na janela. Ver-se refletida na janela do ônibus, ao mesmo tempo em que via o lugar onde passou cinco anos trabalhando tem o mesmo efeito de se estar num lugar escuro e a luz se acende: incomoda os olhos. É preciso dar um espaço para o costume, não se pode ser assim de uma hora pra outra.

É outra agora, sabe disso, porém os medos não se desfazem porque amadureceu um pouco, aliás, os medos atuam ainda mais, pouco se coadunam com a nova mulher que diz ser. Tudo se faz caos e sombra em quem deixou a juventude passar como se fosse algo sem importância, como se fosse possível adiar a entrega, a loucura, a paixão. Lembra-se agora da juventude perdida entre burocracias, atividades inúteis, solidões extremadas de quem não queria, não podia, não conseguia sair daquele caminho fixo estabelecido pela covardia.

Olha a si mesma e não entende porque tanto tempo, tanto teatro absurdo, tanta culpa entendida, subentendida, culpa que se solidifica na sua imagem na janela. Vê-se a si mesma refletida na janela da empresa onde, há 20 anos, ficava os sábados de manhã fazendo hora extra. Porém, não houve apenas esse primeiro emprego lastimável, houve o antes disso também: lembra-se da infância na rua São Paulo, eram dias solares para os amigos, mas para ela, sempre pairavam as sombrias escolhas não feitas. Na adolescência, mudou-se.

Deixou a zona sul e foi para o Iririu, rua Polônia, uma lateral da lateral. Engraçado isso de nome de rua, foi uma mudança mesmo, é como se ela tivesse saído de uma metrópole gigantesca e ido parar num país desconhecido. Trocou uma solidão por outra. Pouco sabia da Polônia, a não ser de uns antigos vizinhos de sua mãe, que se chamavam Golimbieski. Por onde será que andam? Por que nunca mais os viu? Esses foram os contatos mais próximos que teve com a Polônia. Depois, mudou de lá também. Resolveu morar sozinha de vez, mais próximo do primeiro emprego, (aquele mesmo que destravou nela sua condição de mulher que perdeu o tempo). A rua agora tinha nome de homem importante: João Colin. Isso foi há muito tempo. Outras ruas e outros empregos vieram. Veio a idade também, a vida celerada dos 30, dos 40. Nenhum filho, algum dinheiro, um apartamento noutra rua com nome de homem: Ricardo Landmann. Desce do ônibus quase em frente a sua casa. A crise com o tempo arrefece um pouco. Nada pode fazer, talvez amanhã sente no outro lado do ônibus. Quem sabe o que essa outra janela lhe revelará?

Rubens da Cunha

 

 

 

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