Crônica da semana: O poeta-vigia

O poeta-vigia

Por Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 29/08/2012

Qual seria a função, o motivo para a existência de um poema nos dias de hoje? Aliás, em algum tempo o poema precisou realmente existir? Por outro lado e o poeta? Esse ser tão cheio de predicados atribuídos pelo senso comum: o sofredor, o apaixonado, o infeliz, o sensível. Para que poetas nesses dias de agora, tão despoetizados de tudo? Talvez os poetas existam apenas para repetir os fantasmas de um ideal perdido, do ideal massacrado pelas guerras mundiais, pelas culturas de massa, pelo império do descartável sob o qual está sustentada a religião capitalista, como diria Walter Benjamim.

Já no século 19, essas eram questões que afligiam os poetas, mas eles foram os últimos que tiveram um elemento que se extinguiu no século 20: o poeta guia, cujos arquétipos foram poetas com Victor Hugo ou Walter Whitman. Tal poeta era uma figura de vanguarda, ia à frente com a função de ser uma espécie de despertar dos povos, do progresso, da liberdade. No final do século esse modelo já estava obsoleto, encontrando a sua ruína no século 20.

O século 20 com toda a sua evolução e a sua barbárie funda, na linhagem de Mallarmé, uma outra figura: o poeta como uma exceção secreta, mas atuante. É como se o poeta fosse o reservatório de um pensamento perdido. O poeta torna-se o protetor da língua, ou como diz Heidegger, o “guardião do Aberto”. Dessa forma, o poeta muda a sua função, de poeta-guia passa a ser um poeta-vigia, poeta que monta guarda contra o extravio, o poeta capaz de fazer com que a língua mantivesse o poder de nomear o impossível, pois que está no umbral, está naquele espaço de espera. Espaço que não precisa mais guiar, mas vigiar, no máximo avisar o que está acontecendo. O que a arte fez no século 20 foi, basicamente, isso: avisou sobre o caos, a catástrofe, a violência e a morte, tanto do velho conceito de Deus, quanto do velho conceito de homem. Tudo se derruiu após os contínuos genocídios que foram perpetrados no século 20. O sentido, aquele confortável sentido que marcou o século 19, já não existe mais. O que temos é um mundo levantado na superfície, e sustentado no vazio, no descartável.

Essa visão não se trata de desesperança, mas de percepção do estado em que chegamos. Basta olhar o que os poetas vigias nos anunciam. Para isso, ainda existe a corneta da arte, nos avisando do perigo que nos cerca, nos dizendo que a forma mais corajosa de pensarmos é a forma nietzschiana, intempestiva, virulenta, dionisíaca. Precisamos, cada vez mais, enfrentarmos a inércia, a indiferença que nos marca. Já estamos no século 21, o que acontecerá aos poetas é um mistério, que função exercerão esses seres milenarmente estranhos, não sabemos. Talvez a pergunta que moverá o século 21 seja justamente o que fazer com a ruína que sobrou do século 20? Reconstruir e reconstruir-se a partir dos restos, ou continuar a lamentação continua dos arruinados. A resposta está sendo dada pelos poetas-vigias. Basta lê-los.

Rubens da Cunha

 

 

 

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