Os Cães

Crônica de Rubens da Cunha, publicada no Jornal A Notícia em 05/09/2012

Os cães

Os cães existem:

nas ruas, nos jardins, nas camas almofadadas dos ricos, nos colos bacanudos das madames, nas carroças dos catadores, no fundo das casas dos operários, no imaginário das crianças.

Os cães se presentificam:

na obsessão de Hilda e seus 90 cães, nos dois cães de Liliana, na cachorra que odeia o sobrinho de Lúcia. Que gesto dele foi capaz de fazer com que ela se desfizesse de qualquer espécie de carinho por rapaz tão gentil?

Os cães resistem:

são amenos, ferozes, intensos, tristes. Estão todos por aí, jogados, cuidados, presos nas vitrines custando mil reais, abandonados nos bairros mais distantes, envenenados, salvos. Estão nos filmes, nos livros, nas televisões, recebendo aplausos sem nem saber o porquê. Ingrid os fotografa nas praças enquanto são enxotados, bem quistos, enquanto vivem sua vida de cães flagrados pelo olhar atento de quem se atenta ao belo.

Os cães permanecem:

em Santo Antônio de Lisboa, eles dormem, enquanto os homens e mulheres só querem ver o pôr do sol. Em Pirabeiraba, eles passeiam ao lados dos velhos do ancionato Bethesda. Em Nova Esperança, eles esperam entre as casas de madeira e os pastos abertos.

Os cães insistem:

apesar da insistência humana em deixá-los à margem, em desprotegê-los, sobretudo, quando não são protegidos pelas raças definidas, pelos pedigrees, pelos apedeutas endinheirados.

Os cães são espelhos:

espelham-se naqueles com quem andam: um mendigo tem um cão mendigo, e nada consegue ser mais fiel que essa relação na ausência de conforto, de perspectiva. A rica aposentada aposenta seu cão nas bolsas de marca, nos cortes raros de cabelo, nos laços e laçarotes. O cão-guia guia o cego, mas cega-se também em solidariedade. O cão de guarda guarda o patrimônio que não lhe pertence.

Os cães persistem:

Marilda e sua idosa cadela zen-budista, Rubens e seu cachorro fantasma: chamava-se Tege, viveu enquanto viveu a infância de Rubens. Noeli e seu cão escovado três vezes ao mês. Júlia e seu cão feio. Braz e seu cão que insiste em frequentar a vizinhança. Os cães da universidade, do controle de zoonoses, das novelas.

Os cães se desfazem:

no dia a dia das calçadas, na frente dos empórios, nos bares furrebas da periferia. Sob o carinho ou chute, sob a atenção ou desatenção. Enterrando o osso ou enterrando a si mesmos. Os cães de rua são responsabilidade do Estado. Política pública que pouco existe. Os cães estão se reproduzindo, estão revirando o lixo ou o saco caro de ração importada.

Os cães ladram:

roubam qualquer tristeza. Perfeitam-se, plenos, em seu mundo de acenos, acasos, sorte se bem cuidados, descaso se mal vistos. Os cães festejam a vida. Pena que nem todos são festejados.

 

 

 

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