ÁRIAS PÚBLICAS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/09/2012]

O grupo de teatro O Dromedário Loquaz possui uma trajetória de mais de trinta anos e é liderado pela atriz e diretora Sulanger Bavaresco. Foi criado pelo ator Isnard Azevedo e, ao lado do grupo Teatro Armação, é uma das referências históricas obrigatórias para se pensar o atual momento do teatro feito em Santa Catarina. Da trupe, assistimos, nos últimos dez anos, às montagens Quinnipack – Mundos de Vidro (2002) e Jardim das Delícias (2008), ambas dirigidas por Bavaresco. A estética inicial do grupo, a de buscar espaços não convencionais para a cena, em ambos os casos, foram mantidas pela diretora.

Isnard Azevedo, quando criou o grupo, tinha por objetivo montar a peça Os Fuzis da Senhora Carrar, algo que não aconteceu. No entanto, não abandonaram Bertold Brecht, porque a primeira peça que executaram, em 1981, foi A Importância de Estar de Acordo, do dramaturgo alemão. Tanto o grupo Teatro Armação quanto O Dromedário Loquaz nasceram sob a égide de um teatro político e social; influenciados pela estética do Teatro de Arena e pela necessidade que a época exigia. Os grupos ainda sobrevivem e, vez por outra, aparecem com novo trabalho.

Quem esteve na última segunda-feira, pelo final da tarde, nas esquinas das ruas Felipe Schmidt e Trajano pôde acompanhar mais uma intervenção do grupo O Dromedário Loquaz. Mantendo firme as preocupações de seu fundador, a diretora Sulanger Bavaresco, em que pese todos os contratempos técnicos de sonorização, presenteou a cidade com o espetáculo Árias Públicas, um híbrido que conjuga ópera, performance, arquitetura e dança. O resultado dessa mistura foi surpreendente e provocou forte impacto na plateia.

Com Árias Públicas, Bavaresco colocou Lucio Dalla, Puccini, Verdi, Mozart e Bizet ao aprecio do populacho. E o povo, tão heterogêneo quanto o espetáculo, aplaudiu, gostou, chorou e silenciou para ouvir as vozes de Ricardo de Castro, Claudia Todorov, Javier Venegas, Claudia Ondrusek, Masami Ganev, Kalinka Damiani, Carla Domingues, Alicia Cupani, Rute Gebler e Douglas Hahn.

Um piano, conduzido por Eugênio Menegaz, um grupo seleto de cantores-atores e a dança cigana invadiram o espectador desavisado. Se o objetivo da diretora Sulanger Bavaresco foi o de presentear a cidade, os amigos e a arte, tal intento foi atingido em sua plenitude. E se “todo artista deve ir aonde o povo está”, deveríamos pensar em expandir ações como essa pelo centro da cidade e acabar de vez com os preconceitos, geralmente vindos das elites, de que o erudito e o popular estão distantes e de que o sabor e saber da arte lhes pertencem.

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