Crônica da semana – Marco Vasques

A CÉLULA DA CÉDULA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [17/09/2012]

Ao pegar a cédula na mão, teve a impressão de que algo estranho e íntimo alterava seu corpo. O primeiro ganho, fruto do seu trabalho, fez com que uma inquietação se apossasse dele. Pensou em correr à floricultura e comprar begônias vermelhas à namorada; depois, trocou as begônias por gérberas amarelas e, num impulso mais atrevido, cogitou a ideia de comprar orquídeas. Lembrou que Luiza nada merece.

Foi quando o remorso tomou suas ideias. E minha mãe? Ela que me criou com tanto sacrifício? Por que não comprar flores a ela? E vovó? Devia a ela, também, o tributo de estar no mundo e de conquistar o primeiro óbolo. Com a cédula na mão, passou a vagar pela cidade e, a cada esquina, a cada nova rua cruzada, inúmeras partes do mundo estavam à sua mão. Era só estender a cédula a qualquer comerciante que teria o que desejasse.

Sentou no banco da praça, no centro da cidade. Pensou em doar tudo a um passante qualquer. Desistiu. Um pedinte se oferece para receber, porém ele finge que não é com ele e sai. Cruza por toda espécie de pessoas e parece insensível a tantos berros de socorro; contudo, uma menina de pernas abertas para o céu, cabeça enterrada a terra, totalmente nua, o impressionou. Aquela imagem humana e borrada, no canteiro central da praça XV de novembro, perturbou a razão e os sentidos.

Aproximou-se com a curiosidade inerente às crianças. Apertou seus joelhos. Ela permaneceu imóvel. Passou as mãos nas coxas. Ela também não se manifestou. Enfiou uma das mãos em sua vagina e, para seu espanto, ao tirar a mão – a esquerda -, encontrou um retrato de seu rosto pintado com cimento e barro. Assustado com tudo aquilo, entrou no primeiro bordel que encontrou e escolheu a prostituta que mais lhe desagradava.

Ela, uma velha estúpida de pernas para o céu e com a cabeça enterrada no azulejo, acolheu todo o seu corpo. Por instantes o mundo inteiro deixou de existir. Nenhuma preocupação. Nenhum rosto ou nome agredia suas decisões. A vida era ele e aquela velha. Mergulhado num colchão sujo sob uma luz opaca, desejou nunca mais ver o sol, as pessoas, seus familiares e tudo que ultrapassasse aquele universo imundo e proibido.

A cada movimento, a velha prostituta mais sangrava a cabeça no azulejo e desejava que aquilo acabasse logo; teria que encarar uns dez homens famintos. Desesperado, ao menor descuido dela, tratou logo de entrar em sua vagina para nunca mais sair. Descobriu muito cedo que tinha uma queda por vísceras e entranhas. Os parentes mais distantes diziam que ele era um alquimista às avessas; os mais próximos, um mágico pervertido.

 

 

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