A Casa do Sol – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada em 26/09 no Jornal A Notícia.

A Casa do Sol

Casa do Sol. Fim de tarde. O sol entra pelas janelas, delicado, como que se despedindo, toca as paredes, os móveis, os quadros, os pequenos e grandes objetos que um dia foram tocados por Hilda Hilst. Faz três dias que estou aqui, ficarei mais três, ambientando-me, abrindo livros, buscando pistas, estabelecendo um contato físico com esta casa. Há anos, leio e estudo Hilda Hilst, fiz de sua obra uma companheira diária, a Casa do Sol era pra mim uma personagem, uma ficção que se estendia por seus textos. “Se és poeta, entendes, Casa é ilha”, talvez por isso sempre considerei essa Casa um distanciamento, um espaço longínquo que se presentificava na sua escrita aterradora e sublime. Era uma casa em que a rotina era outra, não haveria por aqui vazamentos, entupimentos, pequenos reparos, cuidados que toda casa precisa. A Casa do Sol seria apenas o lugar onde o texto de Hilda Hilst se solarizava para poder solarizar seus leitores.

Pela primeira vez entrei no mundo que Hilda criou em torno de si: “A minha Casa é guardiã do meu corpo e protetora de todas as minhas ardências e transmuta em palavra paixão e veemência”. Uma casa construída longe da cidade, erguida para ser cenário de seus novos caminhos literários: Hilda, que sempre foi tão urbana, veio exilar-se, ou aproximar-se ainda mais da literatura num lugar ausente de qualquer urbano. Hoje não mais, que a cidade avizinha-se da Casa do Sol.

Chegar aqui é conviver com os arcos no pátio interno, com a figueira que, reza a lenda, realiza desejos: “E entre o pátio e a figueira converso e passeio com meus cães”, convive-se com os cães também. Alguns deles ainda estão por aqui, outros, “não os mesmos, outros, de igual destino, loucos, tristes” vieram depois que Hilda foi, mas também apossados do espírito da casa. Chegar aqui é sentar-se neste banco, acarinhar a mesa onde escrevo esse texto sobre a poeta que um dia me fez parar de escrever. Estar aqui é perceber os elefantes e budas de porcelana e, sobre a lareira, um altar repleto de santos católicos. Na biblioteca também se chocam filosofia, esoterismo, teologia, literatura e ciência: “Os livros são criaturas, cada página um ano de vida, cada leitura um pouco de alegria”, escreveu anos antes de vir para a Casa. Estar aqui é tatear as dobras de “mistério nunca desvendado” e o “todo corajoso de poesia” que permeiam cada canto. É ver as fotografias pelas paredes, muitas delas estão os amigos que por anos frequentaram a casa, acompanharam de perto a rotina solar de Hilda Hilst: “Meus amigos sabem de tudo o que eu sei”. São estes amigos que hoje mantém a casa viva e vivendo cada vez mais, tombada pelo patrimônio municipal, aberta a pesquisadores, artistas, pessoas que vem aqui residir por alguns dias nesse lugar onde Hilda residiu por mais de 40 anos, e que se tornou um dos lugares mais míticos e instigantes da recente literatura brasileira.

Rubens da Cunha

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