Crônica da semana – Por Marco Vasques

UM MORTO NA PAISAGEM 

POR MARCO VASQUES

                                Publicado no Jornal Notícias do Dia [08/10/2012]

            Ele morreu nu na paisagem cega. Pernas que terminam e acabam onde os pés, involuntários, levam sua gama de dor, alegria e suor. Um homem é um homem. Brecht já tinha a intuição das nadezas. Píndaro foi além ao dizer que “o homem é o sonho de uma sombra”. Uma morte sempre desloca o olhar de alguém; quase sempre, o deslocamento é para dentro de outro alguém que não seremos. Ela é uma espécie de gelo-carne que entra pelo olhar e nos deixa cheio de um vazio que perturba e arrebata. Aquele homem tinha um destino.

O que o esperava do lado de dentro da vida? Um trabalho corriqueiro? Visitaria uma amante? O sorriso de um filho o esperava? Uma dor alheia? Como saber da profundeza de seu destino? Qual órgão carregava sua febre? Quais delírios? Em qual olhar viveria? A multidão passava ignorando a morte, o destino e o itinerário interrompido daquela vida; se vivo, ainda assim, estaria morto.

A morte virou paisagem. Uma casa destruída. Um trator burocrático, aquela morte. Em segundos, pés pisam cinzas de horas inexistentes. Uma queda de ninguém. Morreu em público e desconhecia toda a mitologia da crucificação da carne. Somos seres ausentes de outros. Uma morte assim deveria mobilizar a vida. Mas não. Não há que se olhar para um corpo colado ao cimento. Corre-se o risco da metafísica. Aquele homem que morreu na manhã perdida de tempo, no terminal urbano, no hospital ou no sofá da sala, teve um súbito desaparecimento de si mesmo.

            Aquele homem se agasalhou num voo indefinido. Aquela morte na multidão gerou pouca estranheza e logo se esfacelou na paragem de desejos outros. É certo que “a morte não melhora ninguém”, mas pode piorar uma multidão. Que multidão sentirá aquele desaparecimento? Uns dois ou três filhos? Uma esposa zelosa? Um amigo de botequim?

Se um homem é uma multidão, por que uma multidão mutila o chão na ausência daquele corpo? Nada sabemos de seu rosto, de seus amores, de suas dúvidas. Mas aquele homem, recolhido friamente dos olhares e carinhos, lateja em algum lugar, no osso, muito provavelmente. O corpo pálido, o olhar fixo ao nada deu sua última lição de abandono.

Morreu na multidão para sentir o beijo da mais completa solidão. Morreu na multidão para mostrar a morte que carregamos segundo a segundo. Aquele homem era o ser mais vivo na paisagem férrea daquela manhã. E os viventes, prenhes de nadezas, simulam a vida em perpétuo esquecimento. Aquele homem ressoa vivo na paisagem escura. Aquele homem, completamente ignorado por todos, epigrafa nossas manhãs: somos túmulos vivos, morremos a cada segundo.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: