A Solidão do voto único – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 10/10/2012

A solidão do voto único

A solidão é um dos temas mais antigos da literatura. Poetas, romancistas e cronistas já se debruçaram sobre ele, já esmiuçaram seus dentros e foras, já compuseram cantilenas, réquiens, tratados épicos sobre a solidão, esse algo indefinido, opaco que nos afeta desde sempre. Alguns mais, outros menos. Alguns controlam a solidão com remédios cujas caixas vem com aquela faixa negra, como se fosse um luto, um aviso da morte que nos leva a cada dia. Outros atacam a solidão nas redes sociais, acumulando amigos imaginários, pois dificilmente um dos três mil contatos do facebook aceitaria receber aquela ligação extremada às 4 horas da manhã. Outros abraçam a solidão, fazem dela companhia, estágio, escada, corpo próximo todo dia. Não se incomodam com os adjetivos: recluso, ermitão, forever alone e afins.

Eu mesmo, um solitário contumaz, já escrevi aqui, há alguns anos, sobre alguém que procurava o lugar ideal para guardar a solidão que o acompanhava, depois de encontrar diversos locais possíveis, meu personagem deixa a sua solidão num sapato abandonado na rua, para mim uma das representações mais cruéis da solidão. Aquele sapato sozinho, que jamais encontrará seu par novamente era um lugar ideal para se deixar a solidão. Trata-se de uma imagem poética, por certo, mas pouco humana, pouco achegada à solidão real, fruto de algum desacerto que concerne a determinadas pessoas em relação a outras, ou seja, àquelas que pouco conseguem conviver em grupo. Acredito que achei outra representação mais intensa, mais aguda da solidão: os candidatos a vereador que só receberam um voto. Diferente daqueles que não receberam nenhum voto, porque, provavelmente, tiveram algum problema no diferimento da candidatura ou outro problema burocrático ou judicial, há aqueles que receberam apenas um voto. Em Joinville foram quatro candidatos, conforme a lista publicada no site do “A Notícia”.

Quem são essas pessoas? Por que apenas elas votaram nelas mesmas? Por que não conseguiram nem convencer um parente mais próximo, alguém de suas relações amorosas ou de amizade? Em que tipo de solidão se meteram essas pessoas que não conseguiram convencer ninguém, além delas mesmas, a lhes dar um voto de confiança?

Desconheço os meandros da política, não sei por que se candidataram, não sei por que enfrentam isso, como encaram seus nomes na lista com apenas um voto? Claro que a solidão dos menos votados é imensa também, se pensarmos naqueles outros quatro que receberam dois votos, temos aí um grupo de oito pessoas, considerando ainda os quatro eleitores diferentes, temos então 12 pessoas. Já é um começo para que a solidão extrema desses tão pouco votados possa se desvanecer. Eles poderiam se encontrar num bar, comemorar esse recorde inverso, rir dessa pequena e breve desgraça que lhes acometeu, espezinhar a solidão que esse cronista acredita existir sobre seus nomes no fim da lista. Se isso acontecer, me convidem. Gostaria de compartilhar um pouco de solidão com vocês.

Rubens da Cunha

 

 

 

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